Citação da semana – 11.set.26

Citação da semana – Pedro Penim
«O teatro é, para si, um lugar de resistência. Posicionou-se publicamente sobre vários projetos europeus que foram alvo de campanha de intimidação por movimentos ultranacionalistas. No Teatro D. Maria II implementaram medidas de prevenção para possíveis situações de ataques de extrema-direita. Como vê o papel do teatro nesta atualidade?

Com muita preocupação. Há sinais muito graves, nos países de Leste, na Bulgária, na Eslováquia. Houve um diretor artístico que foi substituído por razões ideológicas e muito declaradamente. O teatro era excludente, sim, muitas vezes. Muito burguês, elitista e conservador. Nós estamos a fazer uma exposição que se chama “Quem És Tu?”, citando a frase famosa do “Frei Luís de Sousa”, mas que me devolve essa ideia de quem é que nós somos também à luz desta herança que o Teatro Nacional tem proposto à História do teatro português. Com quase 180 anos, o trabalho não está todo feito. Talvez estejamos a dar os primeiros passos no sentido dessa democratização cultural. Acho que a maioria tem uma responsabilidade de acolher as minorias. A maioria será sempre a maioria, será sempre a regra, a norma, a hegemonia, partirá sempre daquilo que se considera ser essa maioria. Esta responsabilidade de que falo é uma responsabilidade do privilégio, onde me incluo, obviamente, de abrir portas para outras realidades que historicamente foram sendo afastadas dessa possibilidade de ter as mesmas coisas que eu tenho, de ter o mesmo nível de vida que eu tenho. E essa herança da democracia foi-se cumprindo, mas está muito por fazer. Olhamos para a nossa sociedade e percebemos que há, de facto, pessoas que continuam sem acesso... Por outro lado, não me revejo nesse sítio de luta partidária. Sempre fui e serei uma pessoa da esquerda. Mas isso reflete-se no meu voto. Enquanto diretor artístico no Teatro Nacional D. Maria II, tenho uma consciência absoluta do rigor que é necessário para que eu possa assumir a missão do Teatro Nacional que terá de ser necessariamente plural. O Teatro Nacional deve ser também um espelho daquilo que é a enorme diversidade de arte teatral portuguesa. E há uma coisa que as pessoas não têm muita noção: de como há tantos artistas a fazer tanta coisa tão boa e com estéticas muito diferentes e às vezes até ideologias muito distintas. O teatro está a voltar ao tempo da Dona Amélia, pelo respeito que tem por ela, pelo seu legado problemático, em alguns casos, mas em outros casos também bastante inspirador. E estamos a voltar aos anos 40, portanto há uma necessidade de entender estes organismos públicos, como o Teatro Nacional D. Maria II, como armas para a pluralidade. Parece que estamos a entrar num outro caminho onde se quer encontrar essa veia mais conservadora para a forma como se entende a arte. E deixar para trás tudo o que é experimentação, porque a catalogamos como intervenção da esquerda. É um disparate épico.»


Pedro Penim (2026). Entrevista de vida a Pedro Penim: “Há 10 anos estávamos num sítio mais promissor da sociedade portuguesa” (entrevista por Cláudia Galhós). Expresso em linha, 10 de setembro de 2026.



Conversa na íntegra aqui.


Fonte da imagem aqui — página do Teatro Nacional D. Maria II, de que Pedro Penim é o atual Diretor Artístico.