Citação da semana – 26.jun.26

Citação da semana – Rui Costa
«Quais são as grandes questões atuais?
Temos sete aceleradores. Um sobre como está constituído o hardware do cérebro, como funciona o cérebro de mamífero, incluindo o humano. Como funciona dinamicamente no contexto de uma decisão simples e quais são os grandes fatores de suscetibilidade e de resiliência na doença do cérebro, especialmente as neurodegenerativas. Se no corpo temos 6500 tipos de células diferentes, só no cérebro são 5300. A grande diversidade celular é ao nível do cérebro, mas quando temos uma doença como o Alzheimer, qual é que é o primeiro tipo celular a morrer? Temos tecnologias para caracterizar o cérebro todo a nível celular e dizer quais são as primeiras moléculas a serem alteradas. E também as mais resilientes. E por que estas não morrem? Porque têm fatores protetores. Então será que os conseguíamos tirar dessas para por nestas? E à medida que estamos a coletar esses dados, o mundo inteiro tem acesso.

Que outros aceleradores vos ocupam?
Estamos a terminar um sobre o sistema imunitário do sangue, desde adolescentes até seniores. Na saúde e na doença. Não percebemos a imunidade. A primeira fase foi caracterizar o sistema imunitário em circulação no sangue, onde é mais fácil, mas a maioria do sistema está nos nossos órgãos. E, curiosamente, o sistema nervoso e o sistema imunitário estão em todo o nosso organismo. Não percebemos isso e a nova ideia de aceleração na imunologia vai ser a neuroimunologia. Também temos um acelerador da ciência celular. O que é uma célula normal? Como se faz um tecido em 3D? Temos o maior projeto já feito sobre a saúde cerebral, a que chamamos Brain Health Accelerator, com muitas parcerias. E, finalmente, um laboratório de design sintético de proteínas e DNA, baseado em IA.

Estão a brincar a Deus?
A ciência brinca um bocadinho a Deus, mas a evolução brinca a Deus todos os dias.

(...)

Temos acesso ao resultado, não ao processo?
Exato. Agora imagine os nossos corpos, quão inteligentes são? Têm sensores para tudo. Se aumenta a pressão arterial, eles tentam diminuir. Têm fome? Dão sinal para ir comer. Têm sono? Dão sinal para ir dormir. Estão milhares, se não milhões, de processos a acontecer ao mesmo tempo com biliões de neurónios, triliões de moléculas, todas a interagir numa coisa emergente que é realmente inteligente.
E imagine que não tenho consciência nem falar, mas consigo mexer-me. Não há nenhuma IA que corra como uma chita. Os chineses estão a mostrar humanoides e é espetacular, mas será que para fazer essas coisas deviam ser humanoides? Podem ser robôs completamente diferentes. A evolução não faz assim. Se for para correr rápido e ter estabilidade, é de quatro. Às vezes até me rio, porque se é para aspirar a casa, é melhor um robô sofisticado do que alguém como nós, porque não fomos desenhados evolutivamente para aspirarmos. Temos de pensar evolutivamente. O que acho fantástico é a vida ser ela própria inteligente. O nosso organismo é inteligência. O sistema imunitário é inteligente. Consciência é eu sentir que sou eu. E vai demorar muito tempo até a IA pensar que tem o sentimento de ser quem é. Posso até ser iludido com quem estou a falar, mas é um truque que não tira nada da Humanidade. O nosso cérebro não reflete a realidade.

Isso é muito complicado.
O nosso cérebro constrói a realidade, uma narrativa. Uma das formas de pensar na memória é que o nosso cérebro faz um filme da nossa vida e preenche a história. Cada um de nós tem uma realidade individual. Depois temos a capacidade de tentar inferir a do outro, mas não temos acesso, mesmo com palavras, porque as palavras reduzem muito dos milhões ou biliões de formas de estar triste que o meu corpo já sentiu e, mesmo assim, uso sempre a palavra “triste”. E você também usa “triste”. Estamos aqui dois tristes, com milhões de tristezas que não conseguimos exprimir. As pessoas ficam muito impressionadas por os modelos de IA alucinarem, mas as pessoas, quando começam a ter demência, confabulam a realidade. 

Como assim?
A pessoa não se lembra do que está a fazer, mas o cérebro não admite, porque é uma desintegração do próprio, e faz uma narrativa. “Esqueceste-te de comer? Não, até comi bem e não tenho fome”, mesmo que esteja cheio de fome. Sabemos que, em casos de tortura, os seres humanos confabulam. Se formos obrigados a dar uma resposta, fabricamos esta resposta. Então, um sistema de inteligência treinado nos nossos textos acha que, se eu forçar, tem de me dar uma resposta, mesmo que não saiba. Por isso, do que é que vamos ter medo? Podemos ter medo da morte e do sofrimento


Rui Costa (2026). “A ciência brinca um bocadinho a Deus, mas a evolução brinca a Deus todos os dias”. Expresso em linha, 25 de junho de 2026.



Conversa na íntegra aqui.

Fonte da imagem aqui.