Citação da semana – 30.jan.26

Citação da semana – João Canijo
«JPN – O que é que o cinema pode revelar que a literatura, por exemplo, não consegue?

JC – O cinema tem uma qualidade que pode ser um risco, que é o imediatismo. A literatura é mais‎ perene. E esse pode ser o risco do cinema, ser só imediato e fugaz. Tenta-se que seja perene.

JPN – Será que as obras de literatura mais descritivas conseguem, de certa forma, aproximar-se do cinema?

JC – Acho que não. Podem inspirar, mas não se aproximam. A literatura obriga, e isso é uma vantagem, a que o leitor imagine as emoções que estão escritas. O cinema mostra-as. Mas também não as mostra só de uma maneira. Cada um vai senti-las de uma maneira diferente. A diferença é essa.

JPN – Há falta de dramaturgia no cinema português?

JC – O cinema tem duas componentes fundamentais. Uma é a forma, ou seja, o estilo do filme. A outra é que, para chegar a essa forma e a esse estilo, é preciso aprender a trabalhar e a respeitar os atores. Aí sim, podemos dizer, que muitas vezes, no cinema português, mas não só, a dramaturgia é imposta aos atores e não feita com eles. Quando a dramaturgia é imposta aos atores, tem muitas vezes falhas, porque não os considera. E ao não considerá-los está a impor-lhes uma dramaturgia em abstrato, que pode não funcionar para todos os atores, porque cada ator é diferente. Os atores não são bonecos, como na literatura, onde são todos escritos pelos escritores e depois o leitor imagina, porque eles não se mostram. No cinema, para teres um personagem concreto é preciso que o personagem saia de dentro do ator. Portanto a dramaturgia também tem que se adaptar ao ator particular, e isso muitas vezes não acontece. Pensa-se que o cinema se pode aproximar da literatura nesse sentido, de impor uma dramaturgia escrita, e encaixar o ator nessa dramaturgia. Isso não acontece, é impossível, porque é impossível impor uma interpretação a outra pessoa. A interpretação é individual.»

João Canijo (2024). João Canijo: «Não há um cinema português, há vários». JPNJornalismoPortoNet em linha, 18 de novembro de 2024.


Texto na íntegra e fonte da imagem aqui.


João Canijo, que faleceu no dia 29 de janeiro de 2026, estava a finalizar o mais recente projeto de cinema, o filme Encenação, assim como a filmagem, há cerca de duas semanas, de uma peça de teatro com ele relacionada, intitulada As Ucranianas.

O encenador Tiago Rodrigues falou de uma «perda colossal». «Tempestuoso e lúcido, foi um artista extraordinário e viveu a sério. Travou um combate poético com o país que somos. Mostrou-nos um espelho que reflectia doses iguais de violência e ternura», disse aqui.