«O que é que aprendeu na escola [de cinema] então? Nada. Eu nem sequer lá ia, como estava a dizer. Filmava, que era o que eu gostava realmente de fazer. O que queria mostrar ao mundo com os seus filmes? O que via à minha volta. A vida, a vida humana? Claro, queria mostrar a vida, queria mostrar a forma como as pessoas vivem. É por isso que temos sequências longas nos seus filmes, grandes travellings, a câmara quase lenta. Porque a vida é assim? É verdade que há isso tudo nos filmes que faço. Os longos monólogos, tudo isso faz parte daquilo que filmo. É que passo a passo, há uma ordem que tenho de respeitar e isso também está nos meus filmes. Quando se acaba um filme conhece-se um conjunto de novas questões e para essas novas perguntas não podemos responder da forma como já fizemos. As velhas respostas não funcionam para as novas questões. De alguma forma, filme a filme, as coisas vão evoluindo e isso obrigou-me sempre a ser cada vez mais simples, cada vez mais puro, cada vez mais claro. Foi isso que aconteceu. Apercebeu-se de que estava a criar uma linguagem cinematográfica tão própria? Não, nunca penso nem pensei nisso. Não quero saber do cinema para nada. Mas quer saber de poesia? Também não sei se quero. A única coisa que me interessa é a vida. Quando estou a ensinar jovens adolescentes, ou me encontro com eles, digo-lhes sempre que não têm de aprender a filmar, o que têm é de aprender a ver a vida, a compreendê-la. Se percebermos a vida e compreendermos as pessoas, se tivermos empatia para com elas, saberemos imediatamente como fazer. Mas, de facto, temos de compreender a vida. (...) O que ensina aos seus alunos? Nada. Absolutamente nada sobre cinema. Ensino-lhes o que é a vida, como já disse, e eles têm de trabalhar sobre isso. Ou, talvez, por outro lado, esteja só a protegê-los. Ensinar é estúpido. A lógica da educação é a de que o professor diga qualquer coisa para que os alunos acreditem que é a verdade e que está certo. Mas não é assim. Há muitas outras verdades que também existem. A principal será a do próprio aluno. É ele que tem de procurar quem é e que verdade é a sua. E isto porque somos todos diferentes e temos que ser nós próprios. É desta forma que eu ensino, digamos assim. O que faço não é educação, é libertação. Se formos adultos livres, chegaremos a algum lado. Só tenho por isso de lhes dar coragem, autoestima e confiança.» Béla Tarr (2026). Béla Tarr (1955-2026): “Não quero saber do cinema para nada. A única coisa que me interessa é a vida”. Expresso em linha, 6 de janeiro de 2026. Entrevista na íntegra aqui. Fonte da imagem aqui, numa outra entrevista em que Luís Miguel Oliveira apresenta, em 2012, o cineasta húngaro, falecido esta terça-feira, deste modo: «O Cavalo de Turim, o filme que o cineasta húngaro anuncia como o seu derradeiro, é o primeiro filme de Béla Tarr a ser estreado em Portugal. Nascido em 1955, foi revelado na viragem dos anos 80 para os anos 90, com um par de enormes filmes — Perdição e O Tango de Satanás (este, enorme também na duração: mais de sete horas...). A sua influência chegou a sítios insuspeitados, pergunte-se por exemplo a um americano como Gus van Sant, cujo cinema "mudou" depois de conhecer Tarr (e Gerry, confessada e expressamente, foi um filme feito sob o feitiço do cinema do húngaro). O Cavalo de Turim é cem por cento Tarr: preto e branco, estruturado em planos-sequência (figura de que Tarr é um dos últimos grandes estetas), em relação alusiva com elementos da cultura húngara e europeia, um pessimismo existencial de cortar à faca.»