«Como é que uma sociedade que é muito mais alfabetizada hoje do que era há 40 anos se tornou numa sociedade que praticamente não lê? Ou estou a ser radical a falar? Não, eu acho que lê. Na prática, estão sempre a ler e a escrever. Agora passou tudo um bocadinho para o áudio e para o vídeo, não é? Mas durante uma data de anos, o pessoal estava a escrever e estava a ler. Porque nas mensagens, naquilo que lia, nas redes sociais, através das redes sociais havia notícias... Acho que hoje são muito poucas as pessoas que compram o jornal e vão para o café e estão ali a ler o jornal sem terem o telemóvel ao lado. Porque o telemóvel tornou-se um instrumento onde temos tudo. Temos câmara de filmar, podemos ver televisão, podemos ver uma série, podemos ouvir podcasts... Aliás, até livros se podem ler no telemóvel. E andamos sempre com o telemóvel. E quando não se tem o telemóvel sentimo-nos despidos. Isto foi muito rápido. Não a existência do telemóvel, mas aquilo que o telemóvel nos proporciona.
Esse instrumento do qual temos as sociedades dependentes é o maior inimigo da leitura de um livro.
Para se ler um livro [eu] preciso de sossego. Eu preciso de estar em silêncio. Não leio em dez minutos, porque não consigo mergulhar. A magia do livro é essa, a magia é tu entrares, tu fabricares cenários, tu fabricares vozes, fabricares a personagem, a cadência com que a personagem fala…
Isso nós só conseguimos com tempo e não conseguimos fazer se estivermos sempre a pensar “mas será que já recebi uma mensagem”, mesmo quando deixamos o telemóvel longe. Às vezes faço isso por disciplina, mas depois é horrível, porque chego ao telemóvel e tenho não sei quantas mensagens, tenho às vezes os meus filhos a dizer “mãe, não atendes o telefone, não respondeste”. Nós partimos do princípio [de] que toda a gente está sempre com aquilo na mão e que é imediata a resposta. São tempos absolutamente paradoxais. É hoje um grande luxo dizer “hoje à tarde, vou estar só a ler ou vou passar um dia inteiro a ler”. E desligar o telemóvel.
Para as novas gerações que cresceram com o telemóvel isto é muito difícil, dá muito mais trabalho, implica muito mais tempo, porque muitas vezes os textos são complexos, implicam estares ali a pensar, andares para trás, voltares.» Bárbara Bulhosa (2026). Bárbara Bulhosa: “O telemóvel é o maior inimigo da leitura de um livro”. Público em linha, 7 de junho de 2026. Texto na íntegra e fonte da imagem aqui.