«Corrigi para sempre, e até hoje, a opinião que tinha sobre os criadores: arte é uma coisa, moral é outra e carácter ainda uma terceira. Já mais velha, ao longo da minha carreira académica, cheguei à mesma conclusão: carácter e erudição não andam sempre a par. E poupo-me a falar de política...» Yvette Centeno (2025). Recomeço [apud António Cabrita (2025). Livros: sempre que Yvette Centeno publica um livro, devia celebrar-se com aparato. Mas o país está entregue à manicura. Expresso em linha, 30 de dezembro de 2025]. Companhia das Ilhas. Texto na íntegra aqui. Excerto do comentário de António Cabrita: «Leiam-se estas páginas como uma introdução aos interesses maiores da sua autora: os sonhos, Jung, Goethe, a alquimia, Hermann Hesse, os mistérios da astronomia e do tempo, da arte. Sublinhem-se ainda as excelentes reflexões sobre o problema do Mal, e a sua extensão, desde o Génesis, a Jacob Boehme, Blake, Fausto ou Pessoa; as páginas sobre numerologia ou Heidegger. Ao correr dos dias, também discorre sobre a literatura contemporânea e as suas figuras: as reticências que introduz quanto ao modelo narrativo de Lobo Antunes são de uma luminosa exatidão; é lapidar o modo como retrata as diferenças de carácter entre a Agustina e a Sophia de Mello Breyner, ou o poeta Gastão Cruz como um agelasta, sem qualquer traço malévolo, en passant; uma das mais deliciosas anedotas extraliterárias do mundo literário li-a aqui, e opõe o carácter surpreendentemente conservador de Henri Michaux à pulsão libertária de Natália Correia, num encontro erótico deveras falhado (vem na página 710 e proponho já um “exercício conceptual”: peço que se instalem câmaras em algumas livrarias que foquem o livro, para se ver quantos curiosos abrirão o tomo nessa página).» Fonte da imagem aqui.