«Li a sua poesia em castelhano, em dois volumes. Os poemas, especialmente posteriores a 2009, têm a mesma ambiência da sua “ficção lenta”... Mas são universos diferentes. Quando escrevo um poema, normalmente não sei o que estou a dizer nesse texto, só percebo passado alguns anos quando o torno a ler. O mesmo acontece com a recepção das minhas peças de teatro: as pessoas não compreendem de imediato... Eu nunca quis escrever poemas de uma maneira diferente, escrevo de um modo modernista e tradicional. Algumas das suas peças de teatro também poderiam funcionar como poemas se declamadas. Um poema ou uma peça de teatro trabalham de maneira diferente na sua cabeça? Sim, a minha citação preferida é a do Lorca quando diz que uma peça de teatro é um poema de pé. Acho que é uma descrição brilhante. Talvez tenha que ver com o facto de numa peça de teatro termos pessoas a andar de um lado para o outro e a falar. Pelo menos, uma parte das minhas peças de teatro e da minha ficção está presente neste ou naquele poema que escrevi anos antes. (...) Sei das suas influências literárias e filosóficas, desde Mestre Eckhart até Heidegger, passando pelo poeta Georg Trakl. Mas nunca lhe perguntei pelo austríaco Thomas Bernhard, que me parece ter um estilo que por vezes é próximo do seu... Sou um grande admirador da sua obra. Quando escrevi o meu primeiro romance [ainda inédito em português], teria uns 23 anos, escrevi-o já naquele meu estilo repetitivo. Escrevi-o sem conhecer nenhum livro do [Thomas] Bernhard. Não houve influência. Talvez o ponto em comum tenha sido eu vir da música e ele também. A música, de um modo simples, é a repetição e a variação de trechos, dizendo isto de maneira grosseira. A primeira vez que ouvi falar dele foi quando morreu, li o obituário num jornal dinamarquês e fiquei interessado na sua obra. Por coincidência, por essa altura foi publicado em norueguês um romance dele [Betão]. Fiquei extremamente fascinado. Eu escrevia com semelhanças ao estilo dele sem o conhecer. Li então os romances e as peças de teatro. Quando comecei a viver na Áustria, fui procurar a quinta onde ele viveu. Antes, numa das minhas primeiras viagens à Áustria, por causa de um convite para estar presente na cerimónia de um prémio de teatro, fazia parte do programa uma visita à sua campa, que foi muito difícil de encontrar. Ele está enterrado no mesmo lugar daquela senhora com quem parece que viveu, não tenho a certeza, e a quem ele chamava... Como é que eu traduzo a expressão alemã que ele usava... "A pessoa da minha vida"? Sim, isso. Ela tinha sido enterrada com o marido. Estão os três na mesma campa. É uma história estranha, os três caixões uns por cima dos outros.» Jon Fosse (2026). Jon Fosse: “Decidi que depois do Nobel não vou competir comigo mesmo” [entrevista de José Riço Direitinho]. Público em linha, 15 de outubro de 2026. Entrevista na íntegra aqui. Fonte da imagem aqui.