Citação da semana – 19.dez.25

Citação da semana – Miguel Esteves Cardoso
«As pessoas que não lêem, e que gostariam de ler, e se sentem culpadas por não ler, têm uma concepção da leitura que não corresponde à realidade.

Imaginam a leitura como uma maratona de concentração, difícil mas recompensadora, à maneira de uma hora no ginásio a levantar pesos, mas mentais.

Se a leitura fosse assim, só meia dúzia de malucos é que lia.

Pode-se ler um poema ou dois, ou uma página de aforismos, ou o primeiro parágrafo de um romance que nunca mais acaba: a nossa cabeça está feita para pegar nesses pedaços, plantá-los na massa cinzenta e desatar a fazê-los crescer.

A nossa cabeça precisa de estímulo para não definhar. Vai buscá-lo onde for preciso: tudo serve.

A imaginação, para correr, não precisa de livros. Mas corre mais com os livros, porque os livros precisam de ser completados: só fornecem as letras, o resto temos de ser nós a fazer.

Pode ser só um poema apanhado na Internet. Já chega.

A cabeça faz o resto.»


Miguel Esteves Cardoso (2025). Dar de comer ao passarinho. Público em linha, 12 de dezembro de 2025.




Crónica na íntegra aqui.




Fonte da imagem aqui, numa conversa com Bárbara Reis em que Miguel Esteves Cardoso fala de si, de livros e de inícios e fechos: 

«[O fecho é]Mais [poderoso] do que o início?
Sim, o início é difícil, mas uma pessoa não pode esbanjar o princípio. Como o primeiro plano de um filme. Tem de ser muito bom, temos de perder muito tempo no início. No início queremos prender, queremos que a pessoa que está a ler continue a ler. Temos de espicaçar a curiosidade, temos de fazer com que o leitor fique um bocadinho intrigado. Mas, no fim, somos nós que mandamos. A pessoa já leu o livro, o artigo ou a crónica, e podemos tanã!»