«O que morre em mim não apodrece, seca: pode até guardar-se nas páginas dum livro.» Alberto Pimenta [apud Diogo Vaz Pinto (2026). Alberto Pimenta. A desarmante lucidez de um monstro do inesperado.] Nascer do Sol em linha, 20 de fevereiro de 2026. Texto na íntegra e fonte da imagem aqui. Excerto do texto de Diogo Vaz Pinto sobre Alberto Pimenta: «Ainda que o tremor não abale muitos, haverá realmente um lugar a menos nesta terra que alguns sentem atravessar-lhes os nervos dos pés até às ideias. Talvez a língua portuguesa dobre os tantos sinos que nela pendurou este seu inspirado meliante capaz de tão rudes golpes por puxar a mão bem lá atrás, ao afecto. E caso alguém estranhe a descortesia do epíteto, vale a pena dizer que a uma hora destas é tarde para virmos cobri-lo de elogios. O melhor será não disfarçar em vénia mesma o mais doce incómodo, e enchê-lo de insultos. Este pelintra não veio para a poesia para se dar ares, não veio pelos tecidos luxuosos, pela alfaiataria, esse modo de cingir graciosamente as formas, mas veio pela capacidade de fisgar o lado mais estafermo da vida, trazer tudo de volta para o recreio, resolver o problema na intimidade de um beijo ou de uma bordoada: “vai a pedra/ de entre os dedos/ sobe à terra que a chama/ na água ao seu redor/ muda de leito e de forma/ irradia então/ puro líquido fulgor/ que até ao mais fundo/ da memória ilumina/ as formas que já tomou/ as que ainda há-de tomar.”»