«Levou quase 20 anos a escrever este romance. Como reuniu tantas histórias de solidão? Sentia-me uma conhecedora da solidão. Pensei na tradição indiana de contar histórias, em The Ocean of Stories [Kathāsaritsāgara, recolha de Somadeva, do século XI]. Criei histórias seguindo estas personagens e outras que já não estão no livro. Foi difícil dar-lhes a forma de um romance. Escreveu as histórias separadamente. Sim, as dos avós e de personagens como Mina Foi. Mina Foi é uma figura comum na Índia. Todas as famílias têm uma tia assim [solteira ou, neste caso, separada, que regressa à casa dos pais]. Quando apresentei o livro na Índia, toda a gente dizia: “Eu tinha uma tia assim.” Pensamos nela como aquela pessoa da família que não chegou a ter uma vida sua. No entanto, podia ter uma enorme importância na nossa infância, partilhávamos a cama com ela, tínhamos uma relação especial. Tive várias tias parecidas com Mina Foi. Ou então somos nós que nos tornamos a Mina Foi. Também sou uma versão dela: não sou casada, sou a tia solteira dos meus sobrinhos. Talvez isso traga a sensação de continuarmos um pouco crianças. O que lhe permitiu dar a essas histórias a forma de um romance? Um romance exige uma forma, um enredo, um desfecho. Ainda hoje me parece uma imposição artificial. Reli tudo o que tinha escrito e fui construindo o livro a partir dos ecos e dos temas que ligavam aquelas histórias de amor e de solidão. Mas há também uma estrutura secreta, assente num símbolo visual, a pintura, e na pergunta: quem fica prisioneiro do olhar de quem? Queria situar a solidão nessas dimensões.» Kiran Desai (2026). Kiran Desai: “Em vez de construir a minha vida, construí este livro” [entrevista de Isabel Lucas]. Público em linha, 20 de outubro de 2026. Entrevista na íntegra aqui. Fonte da imagem neste linque — página da Pen America dedicada à autora.