Na rubrica Artigos, destacamos dois textos: i. Um artigo, de Fernando Chilumbo, «Por que razão devemos estudar o português falado nas comunidades rurais angolanas?», sobre a gramática que também emerge do uso. Excerto do artigo, que pode ser lido aqui: ««[Estudar a gramática a partir do uso] não implica rejeitar a norma-padrão nem desvalorizar o ensino do português formal; significa distinguir a descrição científica dos usos linguísticos da avaliação normativa desses usos.» «A descrição do português em Angola continua a colocar um desafio central à investigação linguística: compreender de que modo as estruturas gramaticais se organizam no uso concreto da língua, considerando a diversidade dos contextos sociais e comunicativos. Na nossa perspectiva, uma das questões mais relevantes consiste em investigar as construções gramaticais utilizadas pelos falantes das comunidades rurais, sem partir do pressuposto de que as diferenças relativamente ao português europeu representam, necessariamente, desvios ou deficiências linguísticas. A Linguística Funcional Centrada no Uso oferece um enquadramento teórico particularmente produtivo para esta discussão, uma vez que considera a relação entre as estruturas linguísticas, as funções comunicativas e as experiências dos falantes. Bybee (2010) [Bybee, Joan (2010). Language, Usage and Cognition. Cambridge University Press.] desenvolve uma abordagem em que a experiência de uso desempenha um papel fundamental na organização do conhecimento linguístico. Nesta perspectiva, a gramática não deve ser analisada exclusivamente como um conjunto abstracto de regras, separado das situações reais de comunicação, mas também a partir dos padrões que os falantes efectivamente produzem e compreendem.»
ii. Um artigo, de Carla Marques, intitulado «Verbo viver com predicativo do sujeito» — sobre construções particulares com verbos principais. Excerto do artigo, que pode ser lido na íntegra neste linque: «Qual a função sintática do adjetivo infeliz na frase «Ele viveu infeliz»? Na frase em apreço, infeliz tem a função de predicativo do sujeito. Tipicamente, o verbo viver é utilizado em construções em que se comporta como um verbo principal, o que significa que pede um complemento direto e daí a dúvida relativamente à função sintática do adjetivo infeliz. Não obstante, existe um conjunto reduzido de verbos principais que podem construir-se também com um predicativo do sujeito, ou seja, com um constituinte que predica, que diz algo sobre o sujeito.»
Na rubrica Montra de Livros, destacamos um texto: i. Um artigo de Carlos Rocha sobre o livro Escrever à Mão, de Alexandre Castro Caldas. Um excerto do artigo, que pode ser lido na íntegra neste linque: «Neste pequeno grande livro (111 páginas), o neurocientista Alexandre Castro Caldas, professor catedrático de Neurologia na Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa, dá conta da neurofisiologia do ato de escrever à mão, salientando o contributo desta competência para o desenvolvimento neurocognitivo e pessoal dos seres humanos. Reagindo contra o domínio dos teclados de computador e a pressão da Inteligência Artificial, o objetivo é defender a escrita à mão como uma atividade de enorme impacto no crescimento e amadurecimento cognitivo e emocional de qualquer pessoa. Alexandre Castro Caldas dá conta de como a invenção da escrita implicou uma verdadeira alteração nas faculdades cognitivas da espécie humana. Para tanto, assinala que, ao longo da história da Humanidade,sistemas de sinais para registo de informação se desenvolveram de forma independente em diferentes regiões do planeta. O aperfeiçoamento de diferentes suportes, do papiro e do pergaminho ao papel, das ferramentas de escrita (cálamo, pena, aparos) e a evolução do próprio material que torna os sinais tangíveis, culminando no uso da tinta para os desenhar, tudo se conjugou para tornar progressivamente mais acessível a redação de apontamentos e mensagens a um número cada vez maior de pessoas alfabetizadas.» Na rubrica Abertura, destacamos um texto: i. Um artigo, da equipa do Ciberdúvidas, intitulado «Virada, turbinar, engajamento, turno, «alienação eleitoral», «fala capacitista» e as eleições no Brasil». Excerto do artigo, que pode ser lido aqui: «A comunicação social brasileira fez eco da vitória de Lula da Silva, que exercerá o seu quarto mandato à frente dos destinos do Brasil, de forma muito expressiva, usando termos pouco comuns, senão mesmo estranhos, para um falante de português europeu (doravante, PE). Em vários títulos da comunicação social, lemos formulações como «Virada inédita dá 4.º mandato a Lula» (Estadão), «Lula vira e será presidente pela 4.ª vez» (Folha de São Paulo). Nestes usos, o nome virada e o verbo virar descrevem uma «alteração radical no percurso ou na condição», um significado a que não se associa o verbo virar no quadro do PE, que em contextos similares recorreria, respetivamente, ao nome reviravolta e a uma forma perifrástica como «dar a volta». O jornal O Globo, por sua vez, titula: «uma explosão de engajamento turbinou Lula». Em PE, encontramos um equivalente quase direto para engajamento no nome envolvimento. Porém, para turbinar, a transferência não é tão óbvia por falta de um termo com o mesmo valor e expressividade. Poderíamos recorrer ao eloquente potenciar ou ao coloquial bombar, sem que nenhum pareça ter todas as cores de turbinar, que tanto descreve a forma como se potencia as qualidades de alguém como se incrementa de forma poderosa algo.» Na rubrica Consultório, que permite que os consulentes façam perguntas aos especialistas do Ciberdúvidas – mas verificando primeiro se não existe já uma pergunta que tenha sido feita anteriormente e que responda a essa dúvida –, destacamos, esta semana, três questões: i. Sobre a colocação do pronome pessoal átono depois de sem. A resposta pode ser lida aqui e responde a esta dúvida colocada por uma estudante: «Na frase «Não consegues odiar ninguém sem primeiro odiares-te», qual é a posição correta do vocábulo te, antes ou depois do verbo?» ii. Sobre discurso direto, ponto de exclamação e minúsculas. A resposta pode ser consultada neste linque e esclarece a seguinte dúvida de uma enfermeira: «Tenho uma dúvida relativa à frase: (1) – Não me apetece, Lucas! – Balbuciou Isabel com cara de enjoada. – Ainda tenho o azedume do pequeno-almoço entranhado na garganta. Com um verbo de fala integrado, o Google diz que não se deve colocar maiúscula após exclamação num diálogo. Embora a lógica pareça indicar que sim (porque há um ponto de exclamação), o Google diz que as regras de edição e pontuação em Portugal determinam o contrário, ou seja, que balbuciou tem de começar com letra minúscula. Segundo essa revisão, o verbo balbuciar é um verbo de fala (dicendi). Portanto, sintaticamente, a frase (1) («– Não me apetece, Lucas! – balbuciou Isabel com cara de enjoada.») é o objeto direto do verbo balbuciar. Ou seja, a frase inteira funciona como um único bloco: «Isabel balbuciou enjoada.» A minha dúvida pode até ser parva, mas como não sou portuguesa nativa, gostaria que me aclarassem essa regra. Afinal, após um sinal de exclamação ou interrogação, a frase seguinte não começa com maiúscula? Ou a normativa da minúscula só contempla os diálogos?» iii. Sobre o uso de «Viena de Áustria». Pode ser lida neste artigo a resposta à dúvida colocada por um assistente editorial: «Nas minhas conversas com pessoas a partir, talvez, dos cinquenta anos, noto que usam regularmente o termo «Viena da Áustria» referir a capital austríaca. É algo que não vejo dito pela minha própria geração (Z), pois dizem apenas Viena — mas pessoas um pouco mais velhas dizem essa versão extensa. Não usam isto para se referirem a qualquer outra capital, que eu saiba. Suspeito que poderá ser para não causar confusão com Viana, e talvez tenha uma relação com Viana do Castelo, mas é estranho na mesma — especialmente a diferença entre as vogais. Será isto real ou impressão minha, ou talvez um nicho geográfico ou mesmo pessoal, ou algo etário / cultural?» Fonte da imagem aqui.