«Falamos de Portugal como o país onde não existe discriminação e os números acabam por indicar o contrário. Este não reconhecimento faz parte do problema? O não reconhecimento é um dos mecanismos mais eficazes de reprodução do problema. A narrativa de que Portugal é estruturalmente tolerante e imune à discriminação funciona como um dispositivo simbólico de negação. Quando uma sociedade se autorrepresenta como “não discriminatória”, cria-se um bloqueio político e institucional à implementação de medidas estruturais de prevenção e monitorização. Os dados do INE, do inquérito às Condições de Vida, Origens e Trajetórias da População, de 2023, contrariam essa narrativa: mais de 1 milhão de pessoas reportaram experiências de discriminação percebida, sendo a escola identificada como o segundo espaço social onde mais frequentemente ocorriam. Nas escolas analisadas, observou-se uma representação institucional recorrente de que “aqui não há discriminação”, coexistindo com relatos contraditórios dos alunos. Reconhecer a existência de discriminação não fragiliza a escola pública. Pelo contrário, reforça a sua legitimidade como espaço onde se aprende cidadania. Dos desafios colocados pela chegada de alunos que não dominam o Português nas escolas, quais as principais dificuldades relatadas pelos professores? Em primeiro lugar, a insuficiência de docentes e mediadores linguísticos para o ensino de Português Língua Não Materna (PLNM) e para desenvolver atividades de inclusão dos alunos. Em segundo lugar, as dificuldades de comunicação com os alunos e famílias, pois a última vaga de imigração trouxe para as escolas alunos que não dominam nem o português, nem o inglês, e parte deles foram escolarizados num alfabeto diferente. Além de que muitos professores não dominam línguas estrangeiras, nem mesmo o inglês, porque essa competência nunca lhes foi exigida profissionalmente. Em terceiro lugar, a dificuldade de ensinar em salas de aulas multiculturais. Os professores não adquiriram durante a formação inicial ou contínua conteúdos/competências que os preparassem para contextos culturalmente diversos. Muitos docentes recorrem a estratégias intuitivas, o que revela um compromisso individual, mas também ausência de práticas sustentadas e consolidadas. O estudo identificou ainda uma tendência para a concentração de alunos com origem imigrante em determinadas turmas. Esta segregação ao nível da escola, agrava desigualdades, aumenta a pressão pedagógica e dificulta ainda mais a gestão da sala de aula.» Sílvia de Almeida (2026). “A discriminação nas escolas não é episódica, é estrutural”. Expresso em linha, 19 de fevereiro de 2026. Entrevista na íntegra e fonte da imagem aqui.