«Que retrato de Salazar quis fazer? O Salazar ligado ao microcosmo das criadas e de Maria de Jesus, o Salazar diminuído que diz que “só os tolos querem o poder”, mas que está agarrado ao poder. Essa contradição é incrível: Salazar tem uma ambição desmedida e, mesmo doente, diz que “devia vir outro para me substituir” — está no diário do médico —, mas isso é dito a partir de um lugar de poder: “Eu concedo que alguém venha.” A diminuição, até o ridículo, vê-se na entrevista que Salazar dá a Roland Faure, do diário francês L’Aurore, simpático com a ditadura portuguesa. Isso acontece porque Maria de Jesus permite. Faure está em Lisboa, entrevista Caetano, ouve rumores da farsa e pede para ver Salazar, que entrevistara antes. No filme, usei as palavras da entrevista, porque está lá tudo. Quando Salazar diz no filme que Caetano “poderia ser ministro” do seu Governo, quando na verdade era ele o primeiro-ministro, isso é factual. O jornalista é provocatório e a manchete é: “Salazar pensa que ainda governa”. Ele faz a grande revelação e os jornais que chegam a Portugal, o L’Aurore vem todos os dias, são apreendidos. Há uma vigilância enorme. No filme põe D. Maria a dizer a Faure “não compreendo o senhor”, mas Faure, que falava bem português, disse que a governanta falava bem francês. A D. Maria não fala bem francês... Ela é analfabeta quando vai para a casa do cardeal Cerejeira e de Salazar, em Coimbra. Só faz a alfabetização em Lisboa, por causa de um irmão que estava em África. Ela não compreendia Garnier, com quem está nas férias em Santa Comba Dão. É muito afectuosa com Garnier, põe uma toalha muito linda sobre a mesa e faz tudo para agradar a Garnier, mas não compreende a língua. É em Santa Comba Dão que Salazar revela o gosto pelo rural, que diz que prefere a agricultura à indústria — a indústria traz o proletariado, logo, comunismo e maus hábitos. Há outra coisa muito forte que ele diz a Garnier: que perdeu uma grande batalha, que é a mulher ter saído do lar. Na altura das filmagens também sabia esta passagem de cor: “Já tomaram consciência desta vaga de independência feminina que se abate sobre o mundo? Este anseio da liberdade pelas mulheres, este tão grande ardor das mulheres em aproveitar os prazeres da vida… É que as mulheres não compreendem que a felicidade se atinge pela renúncia e não pela posse. As grandes nações deveriam contribuir para manter as mulheres no seu lar. Mas essas grandes nações ignoram que a construção sólida e feliz da família só é possível quando a esposa permanece em casa. É assim que o mal cresce e os perigos acentuam-se cada vez mais. Que hei-de eu fazer em Portugal em relação à missão das mulheres? Reconheço a minha impotência em reconduzir a mulher às antigas formas de viver, todas as minhas tentativas foram em vão!”. Isto é uma paráfrase do que Salazar diz à Garnier no Férias com Salazar. Decorei isto quando fui aluno num workshop de teatro com o actor Filipe Cates. Quando estávamos a improvisar cenas, ele estalava os dedos e tínhamos de dizer um monólogo.» José Filipe Costa (2026). José Filipe Costa: “O ‘não mentirás’, mas mentir sempre, é muito próprio do regime de Salazar”. Público em linha, 26 de maio de 2026. Entrevista na íntegra e fonte da imagem aqui.