«O obituário no jornal francês Libération abriu com uma citação de Edgar Morin em que o próprio pensador descreveu, em meados da década de 1990, a sua condição periférica: “Filósofos, sociólogos e cientistas gemem e resmungam assim que meu nome é mencionado, e a alergia que lhes inspiro faz com que não suportem me ouvir [...]. Durante trinta anos, fui solitário, marginal, fora de moda, enquanto o sartreanismo, o althusserianismo, o lacanismo, o foucaultianismo, o deleuzianismo, o sociologismo, o marxismo e o estruturalismo reinavam.” (...) Em 2025, o lançamento do seu livro Y a-t-il des leçons de l’histoire? serviu para Morin reafirmar que a humanidade, com a simplificação dos discursos, “avança como sonâmbula rumo ao desastre”, incapaz de aprender com os erros do passado. Um dos combustíveis do desastre iminente – ele alertou na obra – é o vazio de pensamento dos líderes políticos, incapazes de orientar os povos nas sucessivas crises atuais. Com um ceticismo lúcido, Morin foi uma encarnação vitalista do gai savoir de Friedrich Nietzsche, isto é, a alegria do conhecimento do mundo e de criar novos valores e novos modos de vida. Num momento em que a biopolítica e a tecnologia oferecem possibilidades imprevistas, a defesa por Morin de uma “ciência com consciência” e da interdisciplinaridade dos saberes é de uma atualidade absoluta. O conhecimento atento ao real é sua pedra de toque para enfrentar o avanço dos radicalismos políticos, da polarização ideológica e de todas as modalidades atuais de fascismo. “Morin era um homem livre”, me escreveu Maffesoli, um dia depois da morte do filósofo. “Ele foi um discípulo de Montaigne, leitor e escritor prolífico, manteve-se um pensador independente no mundo acadêmico francês, por seu interesse em temas como a morte, o cinema e a evolução do mundo rural, que iam além da repetição interminável dos determinismos socioeconômicos.” E acrescentou: “Morin, Baudrillard e eu compartilhamos o opróbrio do ‘politicamente correto’, com indiferença e humor. ‘Esses erros, graças a Deus, vão passar’, costumava dizer Edgar.” Morin conta ter verificado bem cedo, ainda durante a ocupação nazista da Europa, a diferença entre simplesmente viver e a aventura da vida: “Estar vivo implica correr riscos”, disse. Quase com 105 anos (que completaria em 8 de julho), ao ser interrogado sobre o segredo de sua longevidade, afirmou, com seu saber alegre: “Amor e curiosidade.”» Edgar Morin apud João de Sousa Cardoso (2026). O saber alegre de Edgar Morin. Piauí em linha, 4 de junho de 2026. Texto na íntegra aqui. Fonte da imagem aqui.