Citação da semana – 6.fev.26

Citação da semana – Rui Lage
«Há um campo verdadeiro?
Há, pelo menos, um campo idealizado, muito presente na poesia portuguesa. Quer quando surge como cenário ou décor, quer quando os camponeses aparecem quase desumanizados. Isto não aconteceu só em Portugal. É uma constante nas literaturas europeias. Os camponeses foram, durante séculos, excluídos, tratados como uma espécie de bonecos, de figuras alegóricas. Nos sonetos campestres de Camões, por exemplo, os pastores e os ceifeiros têm uma sensibilidade quase palaciana, são muito eloquentes e versados em Virgílio e Teócrito. Exprimem-se de uma forma bela, mas totalmente artificial. Isso sempre me perturbou. Adeus, Campos Felizes é uma antologia-manifesto.

Foi fácil organizá-la?
Num certo sentido, sim. Seleccionei poemas com uma ressonância testemunhal, onde o campo real se pudesse vislumbrar através dos interstícios do bucolismo, da lírica pastoral e suas codificações. Nesse sentido, muitos poetas portugueses têm algum poema em torno do campo e do mundo agrícola. Mesmo a Sophia de Mello Breyner, que associamos ao mar, tem dois ou três poemas que poderiam ter estado na antologia. No caso do Herberto Helder, é mais difícil, já que na sua poesia a terra não pode ser reduzida à questão rural ou campestre. É uma terra cósmica. Mas confesso uma certa frustração: até pelo ensaio que a acompanha, achava que a antologia ia dar lugar a alguma espécie de debate.

Lançar um livro hoje tem menos impacto?
Sim. Quando comecei a publicar poesia, ainda havia debates — polémicas, contendas, refregas, o que se lhe quiser chamar — dignos desse nome. Não os ver hoje é um pouco enigmático para mim. Até porque vivemos numa época muito confrontacional, de paixões incontroláveis e de excessos, sobretudo a nível político e social. Mas no campo da literatura, com algumas excepções, é como se reinasse uma espécie de pacto de não-agressão. Não há, como havia antes, críticas fogosas que induziam resposta. Também é preciso dizer que, tirando três ou quatro jornais, não há propriamente publicações onde esses debates possam ter lugar. Mas não ter havido um debate pode ter outro significado.

Qual?
O de que continuamos a não saber o que fazer com o nosso passado rural. Como defende Álvaro Domingues, ainda vivemos numa espécie de stress pós-traumático. Há claramente um recalcamento face a uma realidade que era de fome e de miséria. E, no entanto, Portugal, até aos anos 60 do século passado, era um país essencialmente rural. Como Espanha, aliás. Basta dizer que quando os dois países aderiram à então CEE, em 1986, o número de agricultores no espaço comum duplicou. Toda essa vivência, que mudou radicalmente nas últimas décadas, continua a ser um impensado. Não conheço nenhuma história do campo ou do mundo rural português. Há obras interessantes de Orlando Ribeiro, Ernesto Veiga de Oliveira ou Jorge Dias, mas esse passado continua por estudar. Não foi assim no tempo da Revolução do 25 de Abril.»

Rui Lage (2026). Rui Lage: «A ciência aponta para a nossa insignificância cósmica — e a das palavras». Público em linha, 6 de fevereiro de 2026.



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