Citação da semana – 9.set.26

Citação da semana – Michael Marder
«Para Michael Marder, talvez seja pertinente pensar numa solidariedade planetária da biomassa, a solidariedade com outros seres e com a matéria. Mas como iremos construí-la? Onde nos podemos apoiar? Em que autores, por exemplo?

“Naqueles que desconfiam da esperança, como Franz Kafka e Walter Benjamin. Foi Kafka que disse, em conversa com o seu amigo Max Brod: ‘Há muita esperança, uma quantidade infinita de esperança no universo, apenas não para nós.’ A esperança pode ser uma força bastante conservadora, ou até mortífera. Quando esperamos que tudo volte ao normal, não agimos, não fazemos nada. Deixamos que o estado das coisas piore ainda mais. Temos a tentação de imaginar os humanos e o mundo natural como uma fénix milagrosa que se queima após o fim da sua vida e renasce das cinzas. Sob várias formas, tal imagem persistiu em culturas muito diversas ao longo de milénios. Queimamos tudo, sentimos os efeitos do burnout e depois renascemos do nosso cansaço, até da nossa morte. É fundamental, como um antídoto para a esperança da fénix, imaginarmos a nossa relação com a finitude, a morte, a mortalidade. Políticos autoritários, como Putin ou Xi Jinping, o Elon Musk e outros multimilionários têm outros sonhos e esperanças, que herdaram da velha metafísica. Estão obcecados com os meios biotecnológicos de conquistar a morte.”»


Michael Marder (2026). O mundo tornou-se uma lixeira? Este filósofo diz que sim (entrevista por José Marmeleira). Público em linha, 24 de agosto de 2026.



Conversa na íntegra aqui.


Excerto de uma conversa recente, no dia 9 de maio, na Gulbenkian: «O filósofo Michael Marder retrata na sua nova publicação, Filosofia no lixo: uma fenomenologia da devastação, o Antropoceno como um depósito de lixo global que causa estragos, provocando doenças e degradando as nossas sensações, perceções e pensamentos, de modo que as nuances se perdem e as ideias são reduzidas a associações livres. Diariamente, somos confrontados com a rápida deterioração do planeta: dos microplásticos na água, às toxinas no ar, até à degradação do solo. Neste livro são exploradas as características fundamentais do depósito de lixo e os seus efeitos no corpo e na mente. O autor contempla metabolismos fisiológicos, sociais, económicos e ambientais mais amplos na era do despejo. O livro oferece um vislumbre assustador, mas intelectualmente fascinante, do futuro, relacionando-se diretamente com as nossas vidas, quotidianos e escolhas.»


Alguns dos seus papers são sobre a filosofia de Clarice Lispector, os sonhos das plantas ou a profecia e o populismo na Bíblia hebraica. Ver mais aqui.

 

 

Fonte da imagem aqui.