Na rubrica Artigos, destacamos três textos: i. Um artigo, de Margarita Correia, «Manosfera ou machosfera», sobre terminologia do ódio. Excerto do artigo, que pode ser lido aqui: «Manosfera é uma palavra opaca, visto que, a partir da sua forma, não conseguimos inferir o seu significado, situação sempre de evitar [...].» «Esta era em que vivemos, na qual ideologias e comportamentos até aqui tidos como repugnantes e insuportáveis cedo se transformam em “normais”, traz também consigo os seus próprios neologismos. Entre estes, estão as formas manosfera, machosfera ou «masculinidade tóxica», todas variantes denominativas de conceitos relacionados, ou putativamente sinónimas. Mas, como a sinonímia absoluta é um mito, tratemos de as dissecar brevemente. O dicionário Merriam-Webster regista o termo manosphere, hibridismo construído, provavelmente, por analogia com blogosphere, juntando man («homem») e -sphere («esfera»), ligados pela vogal -o-, característica dos compostos cujo segundo elemento é de origem grega. O dicionário informa que o termo data de 2011 e define-o como «uma rede de sites, fóruns online e outros media digitais tipicamente caracterizados por visões antifeministas e misóginas e pela promoção de modelos ultraconservadores de masculinidade».» ii. Um artigo, de Carlos Rocha, intitulado «Falhar vs. faiá» — sobre a sociedade brasileira e processos fonológicos. Excerto do artigo, que pode ser lido na íntegra neste linque: «"Faiá" é coração, "falhar" é cabeça. E fé é coração. "A fé não costuma faiá": é pra quem fala assim que ela não costuma "faiá".» Gilberto Gil, X, 28/06/2020' «Assim interpreta Gilberto Gil o sentido da forma "faiá", que integra o refrão «Andá [andar] com fé eu vou/ Que a fé não costuma faiá [falhar]», de "Andar com fé", conhecida faixa do álbum Um Banda Um, de 1982. A explicação em epígrafe foi registada muitos anos mais tarde, no lançamento de uma nova versão de "Andar com fé". E, nas vésperas da 2.ª volta das eleições presidenciais no Brasil, a ter lugar em 25/10/2026, o refrão com mais de quatro décadas ganhou novo sentido, sobretudo pela importância atribuída a questões de religião e fé no despique entre os apoiantes de Lula da Silva e os de Flávio Bolsonaro1. É curioso como "faiá", variante de falhar, reúne só por si dois dos traços típicos da fala popular do Brasil que são resultado de processos fonológicos não desconhecidos em Portugal.» iii. Um artigo, de Carla Marques, «Entre a discrição e a descrição», a propósito do dono de um restaurante. Excerto do artigo, que pode ser lido neste endereço: «Lemos num jornal em linha, a propósito do dono de um restaurante conhecido, que ele «continua a abrir o restaurante diariamente e a receber com todos com a simpatia e descrição, que lhe é conhecida». A afirmação em questão acaba por ser algo enigmática, pelo que convoca, para a sua compreensão, uma revisão das diferenças entre os nomes descrição e discrição. O primeiro termo, escrito com -e- na primeira sílaba, refere o ato de descrever algo ou alguém, apresentando ou delimitando alguns dos seus traços. Deste modo, «receber com descrição» poderá significar que a receção dos clientes é acompanhada de uma exposição oral por meio da qual se retrata algo (os pratos disponíveis na ementa do dia, por exemplo). O segundo termo, grafado com -i- na primeira sílaba, descreve a qualidade de ser discreto, de passar despercebido. A ser este o termo que se queria utilizar, pretender-se-ia descrever o dono do restaurante como alguém reservado e cuidadoso na forma de agir e falar.» Na rubrica Abertura, destacamos um texto: i. Um artigo, da equipa do Ciberdúvidas, intitulado «Feminicídio, femicídio, mulhericídio, uxoricídio e uma realidade que não se deixa negar». Excerto do artigo, que pode ser lido aqui: «A violência exercida sobre as mulheres não é um fenómeno da atualidade. Não é de hoje que as notícias relatam casos de mulheres agredidas, violentadas e assassinadas. No entanto, o termo feminicídio é recente na língua portuguesa. Chocantemente recente. Uma realidade tem uma existência frágil (e quase negada) se não existe uma palavra que a nomeie, que lhe dê a materialidade dos sons que se deixam pronunciar. Uma realidade quase não o é se não houver uma palavra que a diga. Isto mesmo parece ter ocorrido durante um tempo largo com o feminicídio, que, segundo o dicionário Houaiss, tem o primeiro registo em português apenas em 2012. E ainda assim, esta palavra vê por vezes a sua frágil existência ameaçada por quem vem negar a realidade que ela nomeia. A deputada brasileira Eduarda Campiano ergueu-se do alto dos seus 23 anos, ditos antifeministas, para defender que o feminicídio não ocorre pelo facto de a vítima ser mulher. A seu ver, o género em nada explica um ato, que resulta apenas de motivações individuais. Com ela,feminicídio é uma palavra sem realidade, que, apesar dos muitos anos que a sua gestão exigiu, deve ser arrastada para o esquecimento por falta de relevância. Todavia, as estatísticas, ao contrário das opiniões, indicam que houve e continua a haver assassínios de mulheres porque o são. E, assim, a realidade que preferíamos em vias de extinção, e não negada, continua a convocar a palavra nascida a ferros.» Na rubrica Consultório, que permite que os consulentes façam perguntas aos especialistas do Ciberdúvidas – mas verificando primeiro se não existe já uma pergunta que tenha sido feita anteriormente e que responda a essa dúvida –, destacamos, esta semana, três questões: i. Sobre o presente do conjuntivo: «talvez esteja». A resposta pode ser lida aqui e responde a esta dúvida colocada por uma estudante: «Na recente campanha do Metropolitano de Lisboa, para reforçar a vigilância dos passageiros sobre a sua segurança e os seus bens, lê-se a seguinte mensagem: «Eu e o meu filho estamos num impasse. Ele disse a frase «talvez um dia eu estarei interessado», e eu corrigi para «talvez um dia eu esteja interessado». Nenhum de nós acha que o outro esteja certo. Podem tirar a dúvida?» ii. Sobre «eis que». A resposta pode ser consultada neste linque e esclarece a seguinte dúvida de um tradutor: «Gostava de saber se existe registro oficial, e com referência lexicográfica, que trate de abonar, especificamente, o uso da locução «eis que» em acepção diferente de «subitamente»/«de repente». Eu não encontrei. Não obstante, deparei-me com os seguintes empregos da expressão, motivo de minha dúvida: «Entre o oficialato mesmo, não se conhece um que proceda de família ilustre ou renomada, eis que nenhum aristocrata aceitará farda na família.» (JU) «[…] deve-se aguardar o procedimento previsto para a execução contra a Fazenda até a expedição da requisição – incumbência do Juízo, não podendo ser imputada como falta ou violação de um dever pelo INSS, eis que a ele é defeso fazê-lo.» Obrigado.» iii. Sobre «falsas esdrúxulas e didática do português». Pode ser lida neste artigo a resposta à dúvida colocada por um professor: «Sei que existem pontos de vista diferentes quanto à classificação tónica das seguintes palavras: família, remédio, extraordinário, etc. Ora, já vi serem classificadas como graves (assumindo que as duas últimas vogais formam um ditongo crescente e não um hiato) e também como esdrúxulas (assumindo as duas vogais finais como um hiato e portanto duas sílabas). Sei também que existe a designação de «falsas esdrúxulas» ou «esdrúxulas aparentes», através da consulta que fiz pelo vosso site. Ora, a verdade é que no 1.º e 2.º ciclos do ensino básico existem muitos exercícios em manuais com este tipo de palavras para serem classificadas quanto à sílaba tónica. Existe alguma norma para o ensino básico? Devem ser classificadas como esdrúxulas ou graves? No Dicionário Terminológico não encontrei resposta para esta questão.» Fonte da imagem aqui.