Destaques do Ciberdúvidas – 9.1.26

Esta semana destacamos três «Artigos», a rubrica «Consultório e a rubrica «O Ciberdúvidas Vai às Escolas». No consultório, refletimos sobre a construção consecutiva «de tão saborosa que estava a sopa», discutimos o verbo celebrar e o seu complemento e analisamos o complemento do nome preconceito. Nos artigos, destacamos uma reflexão sobre deslizes (que merecem a nossa atenção), uma reflexão sobre um acento que marca o tempo e uma terceira sobre o que perdemos quando deixamos de parar para procurar no dicionário» ­— uma leitura crítica a partir de um artigo de Louis Menand na revista The New Yorker.
Na rubrica Artigos, destacamos três textos:

i. Um artigo, de Sara Mourato, sobre «Instância ou estância?» - uma reflexão sobre deslizes que merecem a nossa atenção.
Excerto do artigo, que pode ser lido aqui:
«A cobertura jornalística do incêndio ocorrido em 01/01/2026 numa estância de ski  (ou esqui) na Suíça trouxe, além da gravidade do acontecimento, um pequeno erro linguístico que vale a pena destacar. Numa das peças da CNN Portugal, nesse mesmo dia, ouviu-se referir o local como uma «instância de ski», troca que, embora comum, altera por completo o significado da frase.
A confusão é compreensível: as duas palavras são próximas na forma e no som (parónimas), mas pertencem a campos semânticos muito diferentes. Por um lado, estância, do latim stantia, plural neutro de stans, stantis, particípio presente de stāre, «estar firme» (Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa) designa um local de repouso, turismo ou lazer, como uma estância balnear ou uma estância de esqui. O termo, porém, é mais rico do que parece: pode significar também «paragem ou permanência», ter usos técnicos na construção, referir um ancoradouro na náutica ou até designar uma estrofe na linguagem literária. Apesar dessa variedade, o sentido espacial e concreto é sempre dominante.»

ii. Um artigo, de Carlos Rocha, sobre um acento que marca o tempo: «Pode ou pôde?».
Excerto do artigo, que pode ser lido na íntegra aqui:
«Em Portugal, para assinalar a época natalícia de 2025, uma conhecida entidade que proporciona o acesso e a comparticipação de cuidados de saúde a um segmento da população fazia o seguinte apelo no seu boletim: «Lembre-se daqueles com quem sempre pode contar e que, agora, precisam de contar consigo.»
A frase estaria indiscutivelmente correta se nela ocorresse pôde, e não "pode", ou seja, a forma escrita mais adequada ao contexto é a da 3.ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo poder

iii. Um artigo, de Inês Gama, sobre «O que perdemos quando deixamos de parar para procurar no dicionário» ­— uma leitura crítica a partir de um artigo de Louis Menand na revista The New Yorker.
Excerto do artigo, que pode ser lido aqui:
«Este artigo revela, com uma lucidez quase desconfortável, que a tarefa de usar um dicionário já há muito que deixou de ser hábito até daqueles que prezam o bem falar e escrever. Segundo o autor deste artigo, recorrer à explicação de que a internet democratizou o acesso à informação é cair numa argumentação comum e demasiado fácil, uma vez que o que está verdadeiramente em causa é uma certa erosão de uma confiança coletiva na autoridade linguística. E o dicionário, símbolo do que está correto, tornou-se apenas um mero objeto que decora estantes de bibliotecas ou, no caso dos dicionários online, a que se acede como último recurso.»


Na rubrica Consultório, que permite que os consulentes façam perguntas aos especialistas do Ciberdúvidas – mas verificando primeiro se não existe já uma pergunta que tenha sido feita anteriormente e que responda a essa dúvida –, destacamos, esta semana, três questões: 

i. Sobre a construção consecutiva «de tão saborosa que estava a sopa».
A resposta à dúvida colocada – «Na sequência de frases «Abriu a panela e o cheiro da sopa era inebriante. De tão saborosa, não conseguia parar de comer.», a expressão «de tão saborosa» pode surgir isolada ou obrigada a um complemento: «de tão saborosa que estava, não conseguia parar de comer.»?» – defende que ambas as construções são corretas e plenamente aceitáveis no português contemporâneo.
A explicação pode ser lida neste artigo.

ii. Sobre o verbo celebrar e o seu complemento.
A resposta pode ser consultada neste linque e esclarece a seguinte dúvida: «Pode-se dizer celebrar + que + verbo conjugado no presente? Por exemplo: «hoje celebramos que chegamos mais alto» ou «hoje celebram que estão bem».
Vi recentemente um cartaz de uma empresa a dizer «Celebramos que chegamos mais alto» e soa-me estranho.»

iii. Sobre o complemento do nome preconceito.
O artigo, que se pode ler aqui, responde à seguinte questão: 
«Considere-se a frase:
«António sente que o preconceito com a comunidade brasileira é grande e o crime organizado aproveita-se.»
O constituinte «com a comunidade brasileira» classifica-se de acordo com qual das duas designações?
1. Um complemento do nome, pois alguns nomes derivam de verbos ou adjetivos que exigem um argumento para completar o seu sentido.
O nome preconceito implica que algo ou alguém é o alvo desse sentimento. Quem tem preconceito, tem preconceito contra algo ou com alguém. Ao contrário de um modificador (como antigo ou injusto), que apenas acrescenta uma característica, o constituinte «com a comunidade brasileira» preenche o sentido do que é o preconceito neste contexto. O nome preconceito é de natureza relacional ou de processo. Se dissermos apenas «O preconceito é grande», a frase é gramatical, mas fica semanticamente incompleta no contexto da mensagem do António. O constituinte «com a comunidade brasileira» funciona como o argumento interno do nome, sendo que este grupo preposicional define o objeto do preconceito, restringindo-o de forma tão intrínseca que ele atua como um complemento selecionado pelo nome.
2. Um modificador do nome: o nome preconceito já tem sentido completo por si só (?).
A expressão «com a comunidade brasileira» apenas especifica quem é alvo do preconceito, mas não é obrigatória para que a palavra preconceito faça sentido. Por isso, segundo o Dicionário Terminológico, esta expressão é um modificador do nome (facultativo), e não um complemento do nome (obrigatório).»


No âmbito da intenção de alargamento da ação do Ciberdúvidas nas redes sociais, foi lançado, como os sócios da APP já sabem, O Ciberdúvidas Vai às Escolas.
Este novo projeto leva o Ciberdúvidas às escolas onde se ensina a língua portuguesa, em Portugal e no mundo. Aí, de forma presencial ou à distância, um consultor do Ciberdúvidas esclarece, ao vivo e em direto, as dúvidas que os alunos têm relacionadas com questões gramaticais.
Estas sessões são gravadas em formato vídeo e serão divulgadas, posteriormente, nas redes sociais do Ciberdúvidas, no formato de vários pequenos vídeos (ou reels), que dão a conhecer o esclarecimento dado a cada uma das dúvidas apresentadas, de modo a que outros alunos e professores possam ter acesso aos conhecimentos envolvidos, para esclarecer dúvidas ou sistematizar conhecimentos.
As escolas interessadas em participar neste projeto, recebendo o Ciberdúvidas presencialmente ou à distância, poderão contactar os responsáveis pelo projeto por correio eletrónico: ciberduvidas@iscte-iul.pt

Esta semana, destacamos o vídeo 50 com a resposta à dúvida colocada por uma estudante do AE Engenheiro Dionísio A. Cunha, em Canas de Senhorim: 
As classes e subclasses da palavra "que": conjunção, pronome ou determinante?
A resposta, dada pela consultora Carla Marques, pode ser consultada no vídeo disponível aqui e começa por reconhecer que a única forma de identificar a classe de palavras a que que pertence é analisando o seu comportamento na frase, o que é explicitado a seguir com exemplos, destacando que, normalmente, a questão coloca-se entre o que conjunção completiva e o que pronome relativo.



Fonte da imagem aqui.