«Voltemos ao belo e ao sublime. António, numa palestra, seguindo Kant, diz que o mar é sublime, mas não é belo; o que é belo é uma porção do mar, um pedaço de costa, que conseguimos circunscrever, a que podemos dar sentido e escala. A nossa escala, não é? A.C.C. — A experiência do sublime é uma experiência de qualquer coisa como uma tempestade, relâmpagos, coriscos, trovões. Uma desproporção. L.F. — O sublime mostra-nos a nossa pequenez? A.C.C. — Sim. E, contudo, é exportador da grandeza. L.F. — Eu, enquanto poeta satírico, uma das minhas componentes, gosto sempre de ver o outro lado. “O mar é belo.” O que é que diz uma mãe que perdeu o filho pescador numa noite de tempestade no mar? A.C.C. — Isso seria próximo de Kant. L.F. — A sério? A.C.C. — Sim, porque ele não diz que o mar é belo, diz que é sublime. E o sublime é diferente de qualquer coisa bonita. L.F. — De Camões a Pessoa, de Ruy Belo a Sophia, há excesso de mar na nossa poesia. Então a Sophia era uma chata. Vocês quase não encontram o mar na minha poesia. Encontram muito mais as aldeias — tudo nelas me dá ideias. Eu não sei muito bem o que é o belo. É intangível. Muita da indústria em torno do corpo e do rejuvenescimento, e, agora, uma coisa de que se anda a falar muito, a medicina anti-aging, ou antienvelhecimento, isso é tudo traduções da angústia da perda da beleza porque a beleza está na juventude. A.C.C. — O Philip Roth diz que envelhecer é um massacre. L.F. — Eu, para já, não vi massacre nenhum. Se calhar, até me dá jeito ser cego: vou ao espelho e não está lá nada. Se calhar, o problema é termos tantos espelhos.» António de Castro Caeiro e Luís Fernandes (2026). Um filósofo e um poeta-psicólogo cego: António de Castro Caeiro e Luís Fernandes conversam sobre beleza [entrevista de Pedro Rios e fotografia de Nuno Ferreira Santos]. Público em linha, 27 de julho de 2026. Texto na íntegra aqui. Fonte da imagem — cortesia do fotógrafo Nuno Ferreira Santos — aqui.