“Em 2004, Maria Tereza Biderman preparava um dos seus dicionários escolares e quis saber a minha opinião sobre manter ou retirar do dicionário termos racistas e machistas, usados frequentemente como forma de bullying. A pergunta pareceu-me insólita, porque a Maria Tereza sempre fizera dicionários rigorosos, por critérios científicos, baseados em dados de uso e, na minha perspetiva, o dicionário deveria constituir um retrato fiel do uso das palavras. Então ela chamou a minha atenção para o facto de o dicionário de língua comportar uma contradição, um pecado original: se, por um lado, tem como principal função descrever as palavras e seus usos (constituindo-se como instantâneo de um estado de uma língua e cultura), por outro, a sociedade atribui-lhe uma função prescritiva (considerando-o um regulador, que distingue o que é correto e deve ser usado do que deve ser evitado ou banido). Dito de outro modo, o que é incluído no dicionário fica legitimado por esse simples facto.
Até 1980/90, os dicionários eram feitos com verbetes em papel, muitas vezes manuscritos, que, depois de organizados, tomavam a forma de páginas de livro por composição tipográfica. Nessa época, os dicionários começaram a digitalizar-se: os existentes foram transferidos para programas de texto ou bases de dados e outros foram criados de raiz no computador. A digitalização tornou os dicionários passíveis de revisão e aperfeiçoamento constantes, ação a que as boas editoras procedem.»
Margarita Correia (2023). “Três episódios e alguns dados para a discussão sobre o conteúdo dos dicionários.” Uma das crónicas semanais de Margarita Correia para recordar, publicada a 22 de maio de 2023. DN em linha.
Crónica na íntegra aqui. Fonte da imagem aqui.