Citação da semana – 13.fev.26

Citação da semana – Mark Lilla
«A ignorância é um elemento fundamental do autoconhecimento. Considero essa uma das principais teses do livro. Não é um paradoxo que a ignorância seja desejável na busca do conhecimento?
Eu colocaria a questão de forma diferente: não se pode ter autoconhecimento completo, ou mesmo básico, se não se está consciente do facto de que se começa numa posição de ignorância. O conhecimento da nossa ignorância básica, como Sócrates disse, é o início da sabedoria. Isso não contribui necessariamente para sabermos mais sobre o mundo. Mas certamente pode, por vezes, ajudar a nossa acção ou pervertê-la.

Então, o que devemos retirar desta ideia? Sempre que escolhemos não largar o telemóvel ou não ler uma mensagem difícil de encarar, estamos a escolher a ignorância? As decisões do nosso quotidiano são decisões morais?
Penso que primeiro há, de forma comum, aquilo a que se pode chamar uma ignorância racional. Por exemplo: dois dias antes do Natal não se abrem todos os presentes — quer-se que seja uma surpresa. Se se quer ver um filme e alguém começa a contar-nos o final, pedimos que pare. Se se está prestes a ir para uma batalha, não se quer saber quais são as probabilidades de dela sair vivo. Portanto, há uma espécie de ignorância racional. Mas, para além disso, a curiosidade pode ter os seus próprios problemas. A curiosidade é a condição necessária, embora insuficiente, para adquirirmos conhecimento.

Poderíamos dizer que Agostinho, uma figura central na questão do conhecimento, assume essa postura de ignorância racional?
Não propriamente. Agostinho olha para trás, para a sua vida mais jovem, como uma vida totalmente desprovida de autoconhecimento porque não reconhece que é um pecador. Ele está a esconder-se da realidade da sua vida, e está miserável. Não sabe porquê, e por isso experimenta várias coisas, segue algumas religiões. Mas nada funciona, e continua miserável. Entretanto, um amigo dele morre e fica ainda mais miserável.
É apenas quando tem um confronto consigo mesmo que a miséria desaparece. Mas Agostinho não parte numa viagem movida pela sua própria curiosidade. A sua vida gira em torno de Deus, para ele a curiosidade é um reflexo do orgulho humano e, portanto, um pecado.

(...)


Considera Paulo “o primeiro populista da história”. Vê alguma ressonância entre o contexto histórico de Paulo e o nosso?
Certamente, vejo-a nos Estados Unidos, que é um país muito mais religioso. A combinação de antielitismo, anti-intelectualismo e revelação privada é um cocktail tóxico. É isso que os americanos estão a beber agora. É um momento muito terrível para nós. Não sei o suficiente sobre a Europa — creio que não há este tipo de tradições. Por outro lado, na América Latina, vê-se. Bolsonaro, por exemplo, definitivamente encaixa neste molde.

Há um vazio de que fala, uma pré-condição para que essa revelação mística paulina ocorra. Poderíamos dizer que muitos norte-americanos encaixam nessa pré-condição?
Sim.

O que leva os humanos a este estado de vazio?
Essa é a questão importante. Penso que é sobretudo a incerteza radical, devida à mudança constante em tudo nas nossas vidas. Refiro-me às nossas estruturas sociais, ao nosso sentido de género e sexualidade, ao nosso sentido de autoridade dentro da família, ao nosso sentido de autoridade do governo, às instituições sociais. Isto para além de Silicon Valley, que piora as coisas. Tudo isto leva a uma agitação constante.
Martinho Lutero disse: “Aqui estou, não posso fazer outra coisa.” Mas a vida não é assim para nós, porque o chão se transformou em ondas e a vida tornou-se, para todos — para pais preocupados com os seus filhos —, surfar, esperar pela próxima onda sem saber de onde virá. Isto vai alterar radicalmente o seu mundo, a sua família, a sua visão do mundo.
Em momentos como estes, as pessoas querem segurança. Querem poder dizer: “Aqui estou.” E há pessoas que vão lucrar com isso politicamente, dizendo: “É verdade, tens razão em estar aí.” A ideia de que tudo se tornou líquido na nossa sociedade está a condicionar as nossas mentes. A falta de permanência: taxas de divórcio, instabilidade no lar, etc.
Para terem um forte sentido de si próprias, as crianças precisam de sentir que o mundo à sua volta é estruturado e imutável até certa idade. Os pais estão sempre lá. Estão na mesma casa, não dormem num lugar diferente todas as semanas.»


Mark Lilla (2026). Mark Lilla: “Ainda não aprendemos a viver vidas felizes”. Público em linha, 11 de fevereiro de 2026.



Texto na íntegra e fonte da imagem aqui, onde se pode ler também este excerto: 

«O que é o mito democrático? E de que forma a instabilidade actual mexe com ele?O mito democrático é que a democracia é o único regime político decente imaginável. Era considerada corrupta na Antiguidade, um regime possivelmente bom no século XIX, o melhor regime após a Primeira Guerra Mundial, e o único regime bom imaginável após a Segunda Guerra Mundial. Não penso que a liquidez faça com que as pessoas se agarrem mais a ele; pelo contrário. Sondagens recentes mostram um aumento no número de pessoas que poderiam preferir o governo de um líder forte. É muito preocupante.»