Citação da semana – 13.mar.26

Citação da semana – Paulo Faria

«Havia na tua escrita [de António Lobo Antunes] o medo que os homens têm das mulheres independentes, dotadas de sentido prático, com vontade própria, o medo que os homens têm das mulheres tout court, de todas as mulheres. As mulheres enquanto plantas carnívoras, enquanto predadoras. Havia na tua escrita os homens que, como o meu pai, abandonavam as mulheres e os filhos pequenos, e eram sempre eles a abandonarem-nas, nunca o inverso, homens que abandonavam as mulheres sem nunca as abandonarem verdadeiramente, abandonavam-nas sem nunca se decidirem a partir de vez, exactamente como o meu pai. Havia nos homens dos teus romances um medo ainda mais fundo, o medo de amar, de se entregar aos outros, a incapacidade masculina de lidar com as emoções, o pavor de baixar a guarda, a incapacidade dos homens para exprimirem amor pelas mulheres que amam. O meu pai nunca disse a uma mulher a simples palavra: “Amo-te.” Dir-me-ão: “Não tens a certeza, não podes ter a certeza.” Respondo: “Tenho a certeza absoluta.” Tu punhas em cena nos teus romances homens que nos confiavam a nós, leitores, as palavras que não eram capazes de dizer de viva-voz às mulheres que amavam, tomando-nos como confidentes ou confessores, como testemunhas da sua fraqueza. O meu pai não tinha ninguém que lhe servisse de confessor, e via-se ao espelho nesta tua escrita. Tu confessavas-te no lugar dele. Os teus romances eram confissões por procuração.»

 

Paulo Faria (2026). “É mesmo muito fodido ser homem” — carta ao meu irmão acidental António Lobo Antunes. Público em linha, 8 de março de 2026.

 

 O texto de Paulo Faria será incluído em O resto contarei aos que encontrar no Hades. Ensaios sobre António Lobo Antunes, org. Sabrina Sedlmayer e Vincenzo Russo, Edições Afrontamento, a publicar em 2026.



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