Na rubrica Artigos, destacamos dois textos: i. Um artigo, de Carla Marques, sobre a interjeição ó — vírgula com vocativo. Excerto do artigo, que pode ser lido aqui: «Diz o Dicionário Houaiss, que a interjeição ó é «empregada para chamar, para invocar; exprime t[am]b[ém] desejo, admiração, perturbação, dor etc. [...].» Atualmente, a interjeição ó usa-se em situações informais ou em registos literários. Mas, não deve ser usada em contexto formal, pelo que é desadequado dizer «Ó Sr. Presidente da República».» ii. Um artigo, de Sara Mourato, sobre «Cancro maligno?!», a propósito de um pleonasmo evitável. O artigo, que pode ser lido na íntegra neste linque, refere que «A morte do escritor português António Lobo Antunes, uma das figuras mais marcantes da literatura contemporânea em língua portuguesa, foi amplamente noticiada na imprensa. Em algumas dessas notícias, por exemplo no site Imprensa.com.pt, na notícia "Revelada a causa de morte de António Lobo Antunes", ao referir-se a causa da morte, surge a expressão «cancro maligno». Do ponto de vista linguístico, esta formulação merece ser comentada. Acontece que em português, cancrodesigna já uma doença oncológica de natureza maligna. Por essa razão, a combinação «cancro maligno» deve ser considerada um pleonasmo vicioso, isto é, uma redundância desnecessária em que se repete uma informação já contida no significado da palavra principal. O fenómeno não é raro na língua.» Na rubrica Consultório, que permite que os consulentes façam perguntas aos especialistas do Ciberdúvidas – mas verificando primeiro se não existe já uma pergunta que tenha sido feita anteriormente e que responda a essa dúvida –, destacamos, esta semana, três questões: i. Sobre o verbo dizer com interrogativa indireta. A explicação, que pode ser consultada aqui e alega estarmos perante um caso especial de oração subordinada substantiva completiva, responde à seguinte dúvida: «Gostaria de ver uma dúvida relativa à classificação de uma oração subordinada substantiva esclarecida. Na frase «Ele não nos disse quanto ganhou», o meu primeiro pensamento seria classificá-la como oração subordinada substantiva completiva, seguindo a estrutura de substituir a oração subordinada por isso («Ele não nos disse [isso].»). No entanto, sabendo que as conjunções completivas são normalmente limitadas a que, se e para, seria mais correto classificá-la como relativa? E, caso possa ser considerada completiva, qual seria o antecedente de quanto (uma vez que as relativas não têm antecedente)?» ii. Sobre o advérbio finalmente. A resposta, que pode ser consultada neste linque, responde à seguinte dúvida de uma professora: «Tenho uma dúvida sobre o advérbio «finalmente» e o seu uso como conector discursivo. Em várias gramáticas, «finalmente» é indicado como marcador do último elemento de uma sequência enumerativa. Infelizmente, não havia exemplos. No entanto, ao analisar textos reais, encontrei apenas usos diferentes (corrijam-me, por favor, se a terminologia não é a correta); - Como advérbio temporal – indica que algo acontece após espera: “O projeto finalmente começou.” - Conector conclusivo – introduz uma conclusão ou culminação de um raciocínio: “Foram analisados vários fatores e, finalmente, decidiu-se alterar a lei.” “O relatório estudou a evolução da despesa pública, o impacto das medidas fiscais e, finalmente, as perspetivas de crescimento económico.” Porém, se a frase for: “Em primeiro lugar, discutiu-se a educação. Relativamente à saúde, foram apresentados dados. Quanto a transportes, houve propostas. Finalmente, falou-se da cultura.” Neste caso há uma sequência temporal e finalmente introduz o último termo que é temporal. Até aqui entendo. A dúvida vem como uso numa sequência sem qualquer relação entre si, como marcador de enumeração neutra. Por exemplo, em textos argumentativos ou opinativos com tópicos independentes, uma frase hipotética seria (reforço que foi inventada): “Em primeiro lugar, penso que a educação é essencial. Relativamente à saúde, considero prioritário investir. Quanto a transportes, creio que o investimento deve ser maior. Finalmente, a cultura merece atenção.” Neste caso, os tópicos não seguem uma sequência temporal ou lógica, mas apenas refletem pontos de opinião sucessivos. Aqui, «finalmente» soa estranho, já que transmite um valor de conclusão ou encerramento diferente de marcadores puramente enumerativos como “por último”, que apenas indicam o último item da lista. A minha dúvida é, portanto: Será que «finalmente» pode ser usado de forma natural como marcador neutro do último ponto em listas de tópicos independentes? Não é o mesmo "por último" que "finalmente". Sendo assim, porque teimam as gramáticas em tê-los juntos? Poderiam ainda ajudar-me a classificar gramaticalmente os diferentes usos de «finalmente»? Agradeço desde já qualquer esclarecimento sobre a frequência real destes usos e a terminologia adequada para cada valor de «finalmente». Muitos parabéns pelo magnífico trabalho.» iii. Sobre a análise sintática de «Que morreu D. Sebastião» (Mensagem, Fernando Pessoa), em resposta à seguinte dúvida de um professor: «Os dois últimos versos do poema “O Quinto Império” do livro Mensagem, de Fernando Pessoa, suscitam-me algumas dúvidas, tanto semântica como sintaticamente. Ora, os dois versos são: «Quem vem viver a verdade/ Que morreu D.Sebastião?» Por seu turno os versos anteriores desta quintilha são: «Grécia, Roma, Cristandade,/ Europa – os quatro se vão/ Para onde vai toda a idade» Achei curiosa a musicalidade do verso «Quem vem viver a verdade», que junta a assonância do e e a aliteração do v. Contudo, a minha dúvida prende-se com a classificação da oração «Que morreu D. Sebastião». Terá um valor restritivo (que tipo de verdade é essa: a verdade que é [consiste no facto de] ter morrido D.Sebastião / o facto que é ter morrido D.Sebastião), ou de complemento (que facto é caraterizado como verdadeiro, ou seja:«É verdade que morreu D.Sebastião/ Que morreu D.Sebastião é a verdade»), ou de explicação (o motivo do apelo para viver a verdade [do quinto império] é a constatação da morte física de D.Sebastião, ou seja: «quem vem viver a verdade, já que morreu D.Sebastião»)? Assim, a oração em causa será adjetiva relativa restritiva, substantiva completiva, ou coordenada explicativa? Ainda assim, nenhuma das hipóteses que avancei parece ser inteiramente coerente com o sentido global do poema e da obra. O contexto é o da crença na perenidade do espírito de D. Sebastião, apesar da sua morte física em Alcácer Quibir, e na necessidade de fundar o tal quinto império, posto que os outros quatro já terminaram. Talvez nos queira transmitir o poeta que devemos assumir a morte física do Rei para acreditarmos na sua presença espiritual? Bem sei que a poesia dá azo a uma grande maleabilidade semântica e sintática, mas gostaria de ter a vossa opinião. Parabéns a toda a equipa do Ciberdúvidas pelo vosso excelente trabalho.» Excerto da explicação, que pode ser lida aqui: «Depois desta prévia explicação, é possível entender a oração «Que morreu D. Sebastião» das seguintes duas formas: (1) Oração coordenada explicativa [Afinal] Quem [é que] vem viver a verdade, [afinal] Quem [é que aceita o desafio de] viver a verdade, pois (= «que») morreu D. Sebastião? ou (2) Oração subordinada substantiva completiva (com a função sintática de complemento do nome «verdade») [Afinal] Quem [é que] vem viver a verdade, [afinal] Quem [é que aceita o desafio] de viver a verdade [de] que morreu D. Sebastião?» No âmbito da intenção de alargamento da ação do Ciberdúvidas nas redes sociais, foi lançado, como os sócios da APP já sabem, O Ciberdúvidas Vai às Escolas. Este novo projeto leva o Ciberdúvidas às escolas onde se ensina a língua portuguesa, em Portugal e no mundo. Aí, de forma presencial ou à distância, um consultor do Ciberdúvidas esclarece, ao vivo e em direto, as dúvidas que os alunos têm relacionadas com questões gramaticais. Estas sessões são gravadas em formato vídeo e serão divulgadas, posteriormente, nas redes sociais do Ciberdúvidas, no formato de vários pequenos vídeos (ou reels), que dão a conhecer o esclarecimento dado a cada uma das dúvidas apresentadas, de modo a que outros alunos e professores possam ter acesso aos conhecimentos envolvidos, para esclarecer dúvidas ou sistematizar conhecimentos. As escolas interessadas em participar neste projeto, recebendo o Ciberdúvidas presencialmente ou à distância, poderão contactar os responsáveis pelo projeto por correio eletrónico: ciberduvidas@iscte-iul.pt Esta semana, destacamos o vídeo n.º 43 com a resposta à dúvida colocada por uma estudante da Escola Secundária Senhora da Hora, em Matosinhos: Na frase «Tem uma palavra que não conheço.» O uso do verbo ter como sinónimo de haver é correto? A resposta, dada pela consultora Carla Marques, que recorda que, em português europeu, o verbo ter, no seu uso mais normativo, não tem o sentido de haver, pode ser consultada no vídeo disponível aqui. A rubrica Ciberdúvidas Responde, no episódio 63, aborda as formas de tratamento «você» e «tu». Assista a este vídeo para saber a resposta, dada pela consultora Inês Gama. Fonte da imagem aqui.