Citação da semana – 15.mai.26

Citação da semana – Conceição Lima

«Ainda há cicatrizes do período colonial?

Sim. Nem poderia ser de outro modo, tendo em conta o modelo colonial que prevaleceu em São Tomé e Príncipe. Creio que a cicatriz mais flagrante são as antigas roças coloniais, onde as condições de vida são muito precárias. Se se pode falar numa precariedade geral, julgo que se deve falar numa precariedade específica nas antigas roças. Sendo certo que em 50 anos deveriam ter ocorrido realizações que não ocorreram, certo é também que um modelo que perdurou durante cinco séculos e que não tinha, propriamente, como prioridade as condições dos insulares e muito menos dos serviçais e contratados, não se erradica em meio século. O modelo de economia de plantação ainda marca fortemente a realidade económica santomense. Todavia, o êxito da Cooperativa de Cacau Biológico, CECAB, demonstra que uma estratégia assertiva, gerida com rigor e com honestidade, pode ter um grande impacto sobre as vidas de milhares de famílias. Faltam mais exemplos como a CECAB. Há depois cicatrizes que têm a ver com uma mentalidade formatada para a subjugação, para a falta de auto-estima, para a auto-inferiorização. Afinal, foram séculos de um sistema em que a cor da pele determinava a posição na tabela social. A pilhagem dos recursos naturais, a exploração intensiva e degradante da mão-de-obra, a crueldade de punições físicas, mortes, deixam marcas profundas. O massacre de 1953, o mais traumático acontecimento de que os santomenses têm memória, desencadeado pelo governador Carlos Gorgulho perante a recusa dos autóctones em aceitar trabalhar nas roças de cacau, é a data mais grave do calendário político nacional. A memória perdura nos sobreviventes e nos seus descendentes. Porém, as marcas mentais da escravatura e do colonialismo são uma herança cujo desenraizamento total exige um processo metódico de autoconhecimento que passa pelo sistema de ensino e pela dignidade quotidiana dos cidadãos, pelo reconhecimento e respeito dos seus direitos ao pão, à saúde, à educação, à cultura.

Portugal é hoje o quê para os santomenses? Para que serve?

Portugal é hoje um país muito próximo, um país com o qual São Tomé e Príncipe tem ligações afectivas, de amizade, profundas – metamorfoses da história –, um parceiro estratégico presente em todos os sectores. Ligações profundas não só entre os dois países, mas entre os dois povos. Tenho dificuldades em identificar um sector onde Portugal não esteja presente. É uma porta para o mundo, com a língua como um elemento determinante para a qualidade do relacionamento. Quase todos os são-tomenses têm, pelo menos, um familiar ou amigo próximo em Portugal. Não por acaso, o êxodo dos últimos dois anos tem como destino Portugal. É uma referência incontornável por todas as razões. Uma referência que se assemelha não raras vezes a uma miragem. Dentre os que partiram, alguns regressaram pouco depois, desiludidos. Mas outros continuam a partir. E se esse relacionamento multifacetado carecerá de ajustes aqui ou ali, é opinião de muitos observadores de que tal se deve a um défice de assertividade, de posições claras e de definições por parte de São Tomé e Príncipe.»


Conceição Lima (2025). É preciso “repensar o país, devolver a esperança e um certo grau de confiança” a São Tomé e Príncipe. Público em linha, 11 de julho de 2025.




Entrevista na íntegra aqui.


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Conceição Lima é o nome mais traduzido da literatura santomense, com livros e poemas em alemão, árabe, espanhol, checo, francês, galego, italiano, inglês, shona, servo-croata e turco.

A jornalista e poeta santomense morreu nesta sexta-feira, dia 15 de maio de 2026, em São Tomé.