Citação da semana – 17.abr.26

Citação da semana – Diogo Ramada Curto
«Se fizéssemos uma história da liberdade em Portugal, do pensamento dissidente, o que é que veríamos?
Estaríamos dentro de uma linha que remonta ao século XIX e à história de um povo que se libertou. Veríamos aspectos diversos dessa emancipação dos oprimidos e daqueles que não têm voz.
O primeiro passa logicamente pelo posicionamento de Portugal e dos portugueses relativamente às formas de dominação britânica — o Ultimato. O segundo pela emancipação republicana relativamente à dominação da monarquia. Haverá com certeza um terceiro que passa pelas diversas formas de lutar contra o atraso económico português.
Mas, acima de tudo, penso que a história da liberdade é uma história que apela ao povo, ao viver das classes mais baixas e que se posiciona em relação a elas.


Mas em relação ao pensamento dissidente há alternativas aos projectos nacionais em que seja possível recuar mais do que o século XIX?
É evidente que aí recuamos para períodos onde as noções de igualdade e de liberdade não fazem parte da organização dos sistemas políticos contratualistas modernos, que arrancam, fundamentalmente, com a Revolução Francesa.
Mas teremos com certeza outras formas de pôr em causa uma história oficial. Existem muitos casos em que poderíamos assentar essa história das alternativas, das dissidências.
Se nos fixarmos apenas nos Lusíadas, que começam precisamente com a celebração de “As armas e os barões assinalados…”, quando chegamos ao fim logo do Canto I, vemos a genialidade do próprio Camões a pôr em causa esse mesmo expansionismo através da voz do regedor da ilha de Moçambique. Ele consegue, inspirado no padre Bartolomeu de Las Casas, denunciar as formas mais violentas de expansionismo dos portugueses. Dizendo: “Nós não vos queremos cá, porque vocês queimam, vocês violam, vocês introduzem nas nossas sociedades uma violência que nós não queremos.”
É uma forma de Camões fazer uma contra-epopeia no interior da própria epopeia, seguindo, aliás, as marcas do género épico.

Dizendo, no fundo, que os Descobrimentos é também uma história de violência?
Dizendo que também é uma história de violência. Os Lusíadas é de 1572, mas se formos ao Tratado dos Descobrimentos, de António Galvão, de 1563 — onde existe, de facto, o registo da palavra “Descobrimentos” para designar o processo de expansão dos portugueses no Índico —, verificamos que, a par da celebração dos actos de violência, em que um pequeno punhado de portugueses fez frente a uma aliança de potentados locais, procurando submetê-los, encontramos também uma descrição e uma celebração da capacidade de organização do comércio por parte dos portugueses.
O mais importante é não reduzir a história dos Descobrimentos a visões eufemísticas e parciais das quais fique excluída a violência, o saque, a destruição guerreira pejada de demonstrações de tenacidade, o tráfico e a exploração de escravos.
Tenho dúvidas sobre a pertinência de ideias antagónicas, como a oposição entre violência e integração, racismo e miscigenação — simples antagonismos com fácil aceitação no discurso académico, mas também no discurso público que procura tantas vezes encostar-se a ideias feitas, baseadas em simples antinomias. São inúmeras as figuras e as práticas que esbatem tais separações. A figura do branco pobre, aprofundada nos trabalhos clássicos de história da escravatura por Eric Williams, exemplifica bem isso.»

(...)

A história ensina-nos alguma coisa sobre o presente? O facto de sabermos que houve escravatura ou campos de extermínio durante a II Guerra Mundial evita que se repitam?
Tenho muita dificuldade em aceitar a ideia de que há lições a retirar da história. Os malefícios desses aproveitamentos são muito maiores do que o contrário.
A história como ofício, como forma de fazer investigação e de divulgar esses mesmos resultados, serve, acima de tudo, para nos libertar do passado.
Dentro dessa ideia de libertação do passado, historiadores como Marc Bloch sempre defenderam que a história não obriga — os cidadãos conscientes, informados, têm a oportunidade de escolher, logicamente no interior de estruturas que não são totalmente elásticas.
Não é a história que é a mestra da vida; é a vida que é uma mestra da história.
Quando o historiador se arvora num guardião do passado, ao qual vai buscar lições, penso que não é muito dignificante. A minha maneira de pensar é mais dubitativa e experimental.»


Diogo Ramada Curto (2023). Diogo Ramada Curto: “Lições a retirar da história? A história serve para nos libertar do passado”. Público em linha, 19 de março de 2023.



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