Citação da semana – 25.set.26

Citação da semana – Maria Filomena Molder
«Qual é o sentido da vida?
Em filosofia, nunca se começa pela definição. Quando se pergunta “qual é o sentido da vida?”, supõe-se que a vida se orienta para qualquer coisa. A evidência maior que cai sobre o ser humano, já na infância, é a antecipação da morte. As crianças pequenas percebem os perigos iminentes, que não são só cair ou deixar de ver a mãe. É qualquer coisa relacionada com perda e perigo, mas mais abrangente. Tem que ver com o próprio cessar da aparência, à maneira de Hannah Arendt: um ser nunca mais vai poder ser visto. A resposta à pergunta sobre o sentido da vida tem sempre que ver com a morte. Aquela que mais me perturbou e me instruiu não vem de um filósofo, nem de um teólogo, nem de um profeta, mas do autor anónimo do livro da Bíblia mais paradoxal, o Eclesiastes ou Qohélet. Para ele, um crente profundo, a vida não tem sentido porque se morre. Foi uma das perplexidades maiores que senti, porque sempre associei à experiência de um crente a natural aceitação do sentido da vida.

Porque é que morrer tira sentido à vida?
Porque o que norteia a vida deste homem é o amor pela justiça e o esforço de não se enganar a si próprio. Ele percebe que as suas disposições — procurar a justiça, ver claro, temer a Deus — não alteram a sua situação de mortal. Tanto faz mentir como dizer a verdade. Tanto faz assassinar como proteger a vítima. Tanto faz obedecer como revoltar-se. Todos morrem. Essa ideia implica uma uniformização da vida humana, que faz com que as distinções a que nós damos valor fiquem marcadas com um selo de ininteligibilidade. Eu amo a justiça, mas vou ter o mesmo destino daquele que não ama a justiça. Qohélet tem alegria na vida? Sim, ele ama viver. Ele é temente a Deus, um Deus inacessível, não convém dizer muitas palavras acerca de Deus, melhor é nem dizer nenhumas; ama a justiça; a sabedoria; gosta de estudar e de perceber. Gosta mais de perceber do que de estudar. Mas nada disso confere sentido à vida, porque ele vai morrer. Não havendo sentido, todas as pequenas coisas da vida ganham uma intensidade extraordinária: ter prazer em comer e em beber e, como ele é um homem que gosta de mulheres, ter prazer com a mulher com quem vive — o máximo dos prazeres é ver a luz.

(...)

Não vai buscar a resposta à filosofia, mas à Bíblia, um livro religioso inventado.
Mas a filosofia também é toda inventada! A filosofia surgiu na Grécia ao mesmo tempo que a tragédia. Não temos escritos de Heraclito — o filósofo que desde o início me atraiu mais —, mas temos citações dele que foram transmitidas. Parménides deixou escritos, Platão também. Mas a discussão viva era o mais decisivo. Platão fez uma coisa absolutamente única, que não voltou a repetir-se: criou o diálogo filosófico, uma tentativa de recriar o ambiente vivo de uma discussão, que se mantém ao mesmo tempo que a escrita, independente dela. Isto é tão poderoso em Platão que ele lembra ao leitor o perigo de acreditar naquilo que lê, advertindo-o de que está a ler palavras que foram escritas por outrem e que, se o quisermos interrogar, elas não respondem por ele. Ele esquiva-se-nos nas palavras que nos deixou. Não podemos aderir a elas ou combatê-las a não ser utilizando-as à nossa medida — é isso que se faz na filosofia.

É o contrário da ideia comum de que a vida tem sentido justamente porque sabemos que vamos morrer.
Mas muitas pessoas acreditam que há uma vida para lá da morte. Platão tem essa crença. Os cristãos transformaram a herança judaica através da crença de Platão na imortalidade da alma que, no seu caso, se inscrevia na crença da transmigração das almas, que significa que as almas são poucas e os corpos são muitos. Quando alguém morre, a alma liberta-se do corpo, visto como uma prisão, e inicia uma viagem. No Fédon e na República, Platão imagina essa viagem pela boca de Sócrates. O capítulo X da República, o último, conta a história de um jovem soldado arménio chamado Er, que durante algum tempo foi dado como morto. Preparavam-se para o colocar na pira funerária e afinal ele não estava morto (era como tivesse estado em coma). Depois de se manifestar como vivo, contou a viagem que fez. Ele não tinha de fazer o que as almas faziam, mas reportar o que via como um enviado especial ao além. Ele faz uma descrição extraordinária do universo, como se fossem tranças de luz, e um fuso que entra por dentro de um conjunto de oito orbes e em cada um está uma sereia que canta uma nota, compondo uma melodia — o padrão de uma máquina do mundo, explorada no Renascimento, em particular por Camões, n’Os Lusíadas. A cada alma cabia escolher o seu corpo. Como? Por atracção. As almas sentem a atracção por este corpo e não por outro.

É a sexualidade?
É a sexualidade e não só. É a atracção física e a atracção do género de vida que se quer ter. Há almas que escolhem ser cães. A alma de Orfeu escolhe ser um cisne. A alma de Ulisses escolhe ser um homem banal. A escolha é definitiva. E as almas regressam com os seus corpos à Terra. Qual é o sentido da vida do filósofo? É não voltar a nascer. O filósofo é aquele que não quer voltar a nascer. Tal como Platão imaginou no Fédon, a vida do filósofo é libertar-se de todas as paixões humanas que o fazem prender-se à Terra.

(...)

O filósofo sabe enfrentar melhor a morte?
Sim, porque a morte é uma libertação desta vida. Se ele viveu sem ceder ao desregramento das paixões e dos sentidos, não volta a nascer. E está-lhe prometido habitar uma terra muito parecida com esta, só que nessa terra não há morte, não há sujidade, não há corrupção, é tudo puro e brilhante. Não se fala de animais, só de plantas: árvores, frutos, flores. Um paraíso perdido. No paraíso judaico, só há um animal, a serpente. Já viu? Quando aparece o animal, aparece a morte, o desejo de matar, a fome.

Sente-se mais preparada para a morte por ser filósofa?
Se caímos em nós, percebemos que morremos. Não há ninguém que não tenha caído em si. Depois há que fazer qualquer coisa com isto. Há pessoas que ficam tão horrorizadas que fazem todos pagar por essa descoberta. O Elon Musk só faz isso.



Maria Filomena Molder (2026). Maria Filomena Molder: “O amor é uma disciplina” (entrevista por Bárbara Reis). Público em linha, 20 de setembro de 2026.



Conversa na íntegra aqui.



Fonte da imagem — cortesia da editora Sistema Solar — aqui.