Citação da semana – 6.fev.26

Citação da semana – António Lobo Antunes
«Considero-o a si e a Tchékov como dois génios para os quais a Medicina é importante na imaginação. No seu romance acerca dos anos terríveis de Lisboa sob o despotismo e o perigo, há, como em Tchékov, uma espécie de perdão que é concedido ao homem. Você perdoa muito ao homem, não é um mestre do ódio. Há grandes escritores que são mestres do ódio. Você e Tchékov, e isso sempre o disse de mim para mim, têm o lado médico do perdão, que perdoa a enfermidade do homem. E nos seus escritos de Angola, nas suas cartas à sua mulher, este lado do médico é muito importante. Conhece a obra de Tchékov sobre a ilha Sacalina? É um dos textos que gosto de comparar com Lobo Antunes. 

Quando falava há pouco nos mestres do ódio, de imediato, a pessoa que me veio à memória foi Céline. 

Imediatamente. Imediatamente. Mas também Juvenal. E Swift. Swift é terrível. Há efetivamente grandes mestres do ódio e isso, às vezes, pode dar grandes livros, mas é raro. Em todo o caso, parece-me que, nos seus livros, perdoa muito ao homem.

O problema é que não nos perdoamos a nós próprios.

Não, nem temos o direito de o fazer. Mas é preciso perdoar os outros. E encontramo-nos novamente numa época em que há imenso ódio. Na América, esse grande país, nunca a política esteve tão impregnada de ódio. Não se diz: «Não estou de acordo consigo.» Diz-se: «Detesto-o.» Isso é muito perigoso. Crescem as vagas de ódio nos Estados Unidos e noutras partes do mundo. Já para não falar no Médio Oriente, onde havia possibilidades inéditas de paz, com a criação do estado de Israel, e isso transformou-se num ódio imperdoável, inegociável, exatamente como em alguns dos seus retratos, dos seus estudos acerca do período salazarista em Portugal, onde o ódio reinava. Está, ao menos, agora mais otimista?

Não sei... Acho que tenho reações irracionais, ou uma vocação, uma espécie de vocação animal. É muito estranho, é uma coisa em que os seus livros me ajudaram muito, porque há neles uma reflexão tranquila acerca da condição humana. Tranquila, quer dizer, na realidade é uma reflexão muito inquieta, muito inquieta e por vezes até muito inquietante, mas há ali, ainda assim, a capacidade de olhar o mundo com um olhar, como poderei dizer em francês, sereno. Há uma certa serenidade e uma sabedoria que você tem e que lhe permite abordar os diferentes assuntos com uma imparcialidade — além de outras qualidades que encontro no seu trabalho — que, para alguém como eu, que sou muito parcial, [me] causa alguma inveja. Invejo essa sua profunda capacidade que não é de julgar, não se trata de julgamento. Você sugere mais do que julga, o que é muito importante, pois isso tem muito mais força para o leitor.


António Lobo Antunes (2011). George Steiner e António Lobo Antunes, à conversa. Canal do Youtube do CLEPUL, 9 de outubro de 2011, Cambridge.



A conversa (em francês) entre o escritor português e George Steiner, promovida pela revista LER e o CLEPUL, está disponível no canal do Youtube do CLEPUL e pode ser vista e ouvida na íntegra aqui, com legendas em português, entre os minutos 0:7:50 e 0:12:48.



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