«O filme tem um paralelismo tremendo com os dias de hoje, mas também diz-nos muito da essência do que é ser português. Nisso, o Camilo era brilhante, sobretudo nessa relação umbilical com o campo e a natureza! Na minha opinião, o campo é a matriz principal de sermos, de existirmos. Ainda hoje, apesar das grandes pequenas cidades como Porto, Lisboa, Braga e Guimarães, o corpo de Portugal vem do campo. Um corpo que não está no litoral, está no interior. Diria que é um filme contemporâneo.» (...) Um bigode farto e nada postiço que o ajudou a entrar para o espírito da personagem: «Queria mesmo ter essa sensação física de ter um bigode tão grande: era um desejo físico. Este bigode muda tudo… Enfim, passa por toda a imagem de marca do Camilo. Um bigode imprevisível: tanto podia estar arrumadinho como bastante farfalhudo. Ao contrário do Eça, o Camilo era uma figura muito pouco bustizável, digamos assim… Não consigo imaginar um busto do Camilo! Foi um escritor absolutamente ímpar.» Para Albano, esta rodagem colocou-o também num lugar de escuta: «E isso é tão importante! Para mim, enquanto ator, ter a perspectiva da escuta é a âncora! O filme colocou-me nessa zona. Tal como o Pasolini, que ia para os subúrbios de Roma ouvir a vida pulsante do bas-fond, o Camilo, no cárcere, encontrou essa qualidade do bas-fond, onde a vida pulsa de outra forma, um bocado longe dos circuitos palacianos.» «É um crime se Memórias do Cárcere não for mostrado aos alunos do Secundário. Crime, repito e enfatizo», diz Rui Pedro Tendinha. Albano Jerónimo (2026). Camilo Castelo Branco por Sérgio Graciano: em “Memórias do Cárcere” há mesmo cinema (e devia ser mostrado aos alunos do Secundário) [texto e entrevista de Rui Pedro Tendinha]. Expresso em linha, 21 de outubro de 2026. Texto na íntegra aqui. Fonte da imagem aqui — fotograma do filme de Sérgio Graciano, no PDF divulgado pelo produtor.