Citação da semana – 8.mai.26

Citação da semana – Raquel Lima
«Além da ascendência santomense e angolana, tem também uma trisavó indígena do Brasil e raízes senegalesas. Como é que essas ancestralidades definiram o seu percurso enquanto artista, poeta e investigadora?
Esse lugar de estilhaçamento de raízes é muito interessante na minha poesia como procura constante. Não a busca de um lugar absoluto, mas a compreensão de que o buraco é sempre mais em baixo, como se diz no Brasil. Isso enforma directamente o que faço nas artes e na academia; a forma como conduzo a minha pesquisa, a forma como tento que as minhas ancestrais e as pessoas que me são próximas possam contribuir para ela. A tafua inclui músicas de escravatura, de pessoas traficadas de Angola para São Tomé, então interessa-me o deslocamento, a migração, a pertença. Interessa-me como é que isso, ainda que esteja sujeito a um epistemicídio muito grande, continua a preservar muitas ontologias. Interessa-me muito o que não pode ser rasurado.

Como aconteceu esse tráfico entre Angola e São Tomé no período colonial?
São Tomé e Príncipe é, historicamente, um entreposto de escravatura extremamente importante por causa da exportação de açúcar, cacau e café. Algumas roças em São Tomé viveram muito de pessoas escravizadas que vinham não só de Angola, mas de Moçambique, da Guiné, do Gana, e da Ásia também. Por exemplo, na Roça Monte Café [plantação de café fundada em 1858] há muitos descendentes de Angola que ainda falam quimbundo e umbundo. Além do lugar da escravatura enquanto opressão, interessa-me muito esse agenciamento que as pessoas tinham para poder cantar, organizar-se, celebrar e criar laços de afecto, ainda que debaixo de um sistema extremamente violento.

A sua investigação centra-se no conceito de oratura. Em que medida é diferente da oralidade?
A oratura é mais abrangente. É uma filosofia, uma forma de estar no mundo, que não só questiona o lugar do arquivo, da biblioteca e do museu como principais vectores de produção, acumulação e partilha de conhecimento, mas que propõe outras formas de pensar e ver o mundo, a partir de lengalengas, adivinhas, canções, rituais quotidianos. A oratura é transversal a um período histórico. É um mecanismo que sustenta sociedades inteiras. Vemos muito isso quando falamos de comunidades historicamente oprimidas: os saberes acabam por ser preservados graças à oratura. É um lugar para onde temos de olhar cada vez mais como fonte de conhecimento.

Experienciou isso, de alguma maneira, em Portugal?
Sim, os primeiros movimentos de slam poetry, em que participei, são espaços de oratura. Também entendo o hip-hop como um espaço de oratura, o spoken word, as batucadeiras. Ou seja, lugares circulares em que não há necessariamente uma autoria, mas sim uma partilha de narrativa. Há lógicas de oratura muito contemporâneas, que não se cingem ao continente africano e que são transportadas pelos corpos de várias diásporas.


Raquel Lima (2026). Raquel Lima: “Portugal começa a cristalizar um lugar conservador que nos atrasa a todos”. Público em linha, 7 de maio de 2026.




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