«Como começar um ensaio sobre a quietude. Na medida em que um ensaio é uma abordagem, uma interferência, uma disrupção, uma intrusão minha em si — a sua mente um lago sereno, eu a saltar para ele —, começamos a discutir a quietude como inquietude. Ou seja: Helena de Troia.
O Agamémnon de Ésquilo é uma peça violenta do princípio ao fim, um mundo de pessoas caóticas que fazem coisas caóticas pelas piores razões. A ação desenrola-se na sequência de uma guerra que, para a maioria dos sobreviventes, parece ter sido um erro colossal, evoluindo do sacrifício sangrento e sem sentido de uma adolescente para a devastação de uma civilização. O coro da peça é composto por doze anciãos que não conseguem dormir, ao pensarem em tudo isto; não há lugar nas suas próprias mentes onde possam encontrar descanso ou devaneio. «[Quando, em vez do sono,] goteja diante do coração uma dor feita de remorso», dizem eles. No meio dessa ferida [woundedness] generalizada, dessa desordem [disarray] internacional, na terceira estrofe da segunda ode coral, o coro coloca Helena como a causa imediata, porém suficiente, de tudo isso, e fá-lo nestes termos:
Assim também eu diria que o que primeiro veio para a cidade de Tróia foi uma disposição de mar calmo sem vento e um suave ornamento de riqueza, um brando dardo desferido por uns olhos, uma flor de desejo que morde o coração.
Uma disposição de mar calmo sem vento. Sempre me impressionou a maneira como Ésquilo introduz [slips] Helena tão suavemente na violência desta ode e desta peça, como uma gota de mercúrio a deslizar num tubo de ensaio cheio de lava. Não é a forma habitual de sugerir [to recommend] uma femme fatale, dizer que ela contradiz a turbulência e surge como um período de tempo tranquilo. Mais adiante, nesta ode, o coro vai descrever Helena a desviar-se de repente do seu curso pacífico original para trazer a ruína à família de Príamo, mas o primeiro impacto dela é essa quietude.»
Anne Carson (2026). An essay on stillness [Trad. de João Pedro Aido]. Critical Inquiry, Volume 48, Number 1, 20 de agosto de 2021. DOI: https://doi.org/10.1086/715987
Anne Carson é o Prémio Nobel da Literatura de 2026 e a sua obra dialoga de forma inovadora com a tradição clássica.
Fonte da imagem aqui — página da Academia Sueca.
Nas citações da peça de Ésquilo, usámos a tradução de Manuel de Oliveira Pulquério:
Ésquilo (2024). Oresteia. Agamémnon, Coéforas, Euménides (Introdução, tradução do grego e notas de Manuel de Oliveira Pulquério), p. 32, vv. 179-180. Edições 70.
Id., p. 54, vv. 739-744. O tradutor refere que, «contrariamente à opinião de Mazon, entendo que o Poeta se refere aos olhos de Helena, não aos olhos dos que a contemplam. O itálico reproduz o itálico introduzido por Anne Carson no seu ensaio, em «a spirit of windless calm».
Em francês no original.
Pulquério traduz os vv. 745-749 como «Mas, de repente, Helena revela o amargo fim das núpcias: ela é o colono funesto e a funesta companhia que se lança sobre os filhos de Príamo por intersecção de Zeus Hospitaleiro, uma Erínia que traz lágrimas às noivas.»