Na rubrica Artigos, destacamos dois textos: i. Um artigo, de Carla Marques, «Ver com todos os sentidos», sobre Saramago e a visão. Excerto do artigo, que pode ser lido aqui: «Numa altura em que a Academia Sueca anuncia o Nobel da Literatura de 2026 [atribuído à poeta canadiana Anne Carson, que também tem cidadania islandesa], lembramos com o nosso Nobel português algumas das lições que nos deixou e cuja perenidade e atualidade o escoar do tempo vai confirmando. Enquanto nos narrava a história de uma epidemia de cegueira branca, Saramago explorou, numa mesma obra, os alcances semânticos do verbo ver. Entre a trama de um universo que se ergue feito de cegueira, ver é ali, à letra denotativa, «enxergar», um sentido que os novos cegos perderam. Porém, também ali, gradativamente, vemos o sentido de ver alargar-se a novos valores, sendo também a «capacidade de olhar para alguém, algo ou si próprio». Um ver que é «contemplar», mas que é também «compreender, escrutinar». Um ver que é «estar presente» e «testemunhar» e assim passar à ação. Ver assumido como «conhecer» e assim «compreender» e ir mais além. Ver feito «descobrir» e desta forma compreender melhor e entender. Ver que é «reconhecer» e «perceber» e então estar em sintonia com um mundo que é também nosso. Ver adensado no «recordar» e «evocar», «imaginar» e «antever» e deste modo trazer para o presente outros tempos e para a realidade outras possibilidades.» ii. Um artigo, de João Nogueira da Costa, «Caracalpaquistão e outros "-istões"'», sobre a origem e os usos do elemento -stão. Excerto do artigo, que pode ser lido na íntegra aqui: «O nome de vários países da Ásia termina com o sufixo de origem persa -stan (aportuguesado para -istão/-stão), que significa «país, terra, lugar»: Afeganistão, Cazaquistão, Paquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turquemenistão e Usbequistão. Contudo, a série não fica por aqui, pois, se levarmos a pesquisa mais longe, depressa nos deparamos com nomes de regiões que, não constituindo estados independentes, também evidenciam a terminação -(i)stão. Um exemplo recorrente é o de Curdistão, constituído pelos territórios onde as comunidades de língua curda são maioria ou, pelo menos, minoria não negligenciável. Um outro caso de géonimo formado por este elemento é Indostão, como denominação do subcontinente indiano, unidade geográfica que abarca uma subunidade cujo nome também exibe o sufixo -stan, aportuguesado como -stão: Rajastan, nome de um estado da Índia, que se adapta como Rajastão.» Na rubrica Abertura, destacamos um texto: i. Um artigo, da equipa do Ciberdúvidas, intitulado «Bolsonarismo, lulismo, petismo e os «vira-casacas». Excerto do artigo, que pode ser lido aqui: «No Brasil, os resultados da primeira volta das eleições presidenciais ditaram a necessidade de uma segunda ronda de votações, que será disputada pelos dois candidatos mais votados: Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), que conquistou 45% dos votos, e Flávio Nantes Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), com 47% dos votos. A campanha eleitoral conduziu à definição de posições, a alinhamentos políticos com as ideologias e medidas propostas, e, como é natural, a língua fez o seu caminho na criação ou na mobilização de termos e expressões que permitam, seguindo o princípio da economia linguística, designar as realidades concretas e abstratas envolvidas neste processo. No âmbito do contexto extralinguístico das eleições brasileiras, entre os termos mais usados, destacamos os que designam as correntes que assumiram maior força eleitoral: o bolsonarismo e o lulismo. Ambas as palavras são neologismos formados com base num processo morfológico de derivação, que toma como radical os apelidos dos candidatos, aos quais se retirou a vogal correspondente ao índice temático – Bolsonar(o) e Lul(a) – e se acrescentou o sufixo -ismo. Este sufixo é dos mais produtivos em língua portuguesa, tendo a capacidade de formar nomes de ação (como ostracismo, p.e.) ou indicar a ação de agentes tóxicos (como em alcoolismo, p.e.). É igualmente muito produtivo na formação de palavras que designam movimentos sociais, ideológicos ou políticos (entre outros), o que justifica a sua mobilização nas palavras aqui em apreço. Em estreita correlação com o sufixo -ismo, assinalamos o recurso ao sufixo -ista, que se associa às mesmas bases lexicais para designar um adepto, seguidor ou partidário de um movimento, permitindo, deste modo, a criação dos termos bolsonarista ou lulista.» Na rubrica Consultório, que permite que os consulentes façam perguntas aos especialistas do Ciberdúvidas – mas verificando primeiro se não existe já uma pergunta que tenha sido feita anteriormente e que responda a essa dúvida –, destacamos, esta semana, três questões: i. Sobre «o verbo denunciar». A resposta pode ser lida aqui e responde a esta dúvida colocada por um bibliotecário: «Num aviso automático gerado pelo Google, associado a uma mensagem que recebi, leio: «Por que motivo esta mensagem parece spam Mensagens semelhantes que recebeu foram identificadas como spam. A Google mantém as suas informações pessoais privadas, seguras e protegidas. Denunciar como seguro.» Parece-me que a injunção final, «denunciar como seguro», está incorreta e provavelmente resulta de um efeito de espelho em relação a mensagens como «Denunciar como spam», em que há de facto a necessidade de evitar a receção de conteúdos supérfluos. Não seria mais correto «Comunicar como seguro»?» ii. Sobre «Esperar alguém» e «esperar por alguém». A resposta pode ser consultada neste linque e esclarece a seguinte dúvida de uma professora: «É aceitável usar em linguagem cuidada «Espera-me à porta do cinema», em vez de «Espera por mim à porta do cinema»? E assim, usando com todos os pronomes de complemento direto – te, o/a, nos, vos, os/as?» iii. Sobre «Laico e leigo». A resposta à dúvida colocada por um consulente – «Consultando o dicionário de palavras cultas da língua portuguesa, vi algo que me deixou intrigado. O vocábulo laico é colocado como sinônimo de leigo, «desconhecedor do assunto», sendo abonado o exemplo: «Gerentes de lojas não podem ser laicos em direito do consumidor.» Como sempre relacionei esse vocábulo ao fato de não ser influenciado por doutrina religiosa, fui pesquisar na Web e dicionário, porém não achei referência a outro fato senão o de não religioso. Assim, por gentileza, é de conhecimento de vocês essa acepção para esta palavra ou há alguma fonte que corrobore este dicionário que li?» – pode ser lida neste artigo. Fonte da imagem aqui.