Na rubrica Artigos, destacamos dois textos: i. Um artigo, de Carla Marques, sobre «Dormir a lastro» — uma reflexão sobre uma expressão de Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio. Excerto do artigo, que pode ser lido aqui: «Convém começar por recordar que a obra de Vitorino Nemésio reproduz, em muitas situações, aspetos dos falares açorianos associados ao domínio da oralidade e a determinados grupos sociais. José Martins Garcia, na publicação Vitorino Nemésio, a Obra e o Homem, afirma "Nemésio recuperou um mundo. Dos nomes das coisas aos nomes próprios, da tradição mítica ao vocabulário inglês deturpado em boca de marinheiro açoriano» em que se torna evidente a «tentação de reproduzir em páginas de ficção as peculiaridades fonéticas da fala"». ii. Um artigo de Sara Mourato, «Novo Dicionário de Regência Verbal e de Erros de Linguagem», sobre a sintaxe de mais de 200 verbos, ilustrada com exemplos assinados. Excerto do artigo, que pode ser lido aqui: «O volume abrange cerca de duzentos verbos, distribuídos em entradas claras, acompanhadas de exemplos assinados e remissões internas. A esta secção central juntam-se duas componentes complementares: os exercícios de aplicação, que permitem praticar as construções descritas, e um conjunto de «histórias improváveis», pequenos textos narrativos criados para ilustrar, em contexto, o emprego de determinadas regências. A obra é ainda acompanhada de diversos índices organizados por verbos e temas, o que facilita o acesso às diferentes áreas da obra, pois permite localizar rapidamente tanto as entradas principais como os exemplos dispersos ao longo do livro.» Na rubrica Consultório, que permite que os consulentes façam perguntas aos especialistas do Ciberdúvidas – mas verificando primeiro se não existe já uma pergunta que tenha sido feita anteriormente e que responda a essa dúvida –, destacamos, esta semana, três questões: i. Sobre os verbos causativo e de perceção nos ensinos básico e secundário e o aprofundamento de um tópico fascinante e complexo. Excerto da dúvida colocada: «Gostaria de aprofundar a análise sintática de frases complexas com verbos causativos (mandar, fazer, etc) ou verbos sensitivos (sentir, ouvir, etc). Compreendo que seja uma matéria que levante algumas perplexidades, mas considero que não seria desejável remeter o seu estudo apenas para contexto universitário dado que estas frases são muito correntes nos textos, aparecendo com grande frequência. Exemplos: O diretor mandou-o sair O professor deixou-o entrar A doença fá-lo sofrer A Maria ouviu-o gritar. Ora, em todas estas frases complexas estamos na presença de uma subordinante [o diretor] e de uma subordinada completiva de infinitivo não flexionado [-o sair]. A subordinada completiva exerce a função sintática de complemento direto, tal como consta na Gramática do Português da Fundação Calouste Gulbenkian (p. 1957), citada pelo Ciberdúvidas: «Os verbos causativos "mandar" e "fazer", o verbo de permissão "deixar" (que costuma ser classificado como "causativo", tal como os dois primeiros) e os verbos de perceção "ver", "ouvir" e "sentir" são predicadores transitivos que selecionam dois argumentos: um argumento sujeito, com o papel temático de agente com os verbos causativos e de experienciador com os verbos de perceção; e um argumento oracional com a função de complemento direto, que denota a situação causada ou percecionada.» Ora, como o mesmo verbo não pode ter dois complementos diretos, esta análise invalidaria a classificação do pronome “o” como complemento direto. Por exemplo, da frase “o amor fez o poeta sofrer” para a frase “o amor fê-lo sofrer” estamos perante a existência de um pronome “lo”, que na verdade não se trata do complemento direto do verbo fazer, pois o CD do verbo fazer é “o poeta sofrer”. Ou seja, seria aceitável dizer “o amor fê-lo” [o amor fez a ação de colocar o poeta a sofrer / o amor fez isso). Ora, se mantivermos a construção “o amor fê-lo sofrer”, que é, de facto, uma construção perfeitamente natural na língua, e procedermos à sua análise sintática, constatamos que “o amor” é sujeito, “fê-lo sofrer” é predicado, e o constituinte “lo-sofrer” é complemento direto. Isto significa que, na frase complexa, “lo” não exerce qualquer função sintática, ele é apenas uma parte do Complemento direto do verbo fazer.» A resposta a essa dúvida sustenta que, para aprofundarmos a questão, teremos de entrar em domínios que, claramente, se afastam do previsto para a análise gramatical nos referenciais curriculares em vigor — mas «concordamos que estas construções são frequentes nas línguas, mas estamos em crer que, apesar desta assinalável frequência, a complexidade que envolvem e a densidade sintático-semântica que implicam não fazem delas um tópico acessível para o quadro do ensino básico e secundário. Não obstante, a nossa opinião não tem qualquer valor vinculativo relativamente à decisão relacionada com os conteúdos a integrar num quadro curricular.» A explicação pode ser lida neste artigo. ii. Sobre a análise morfológica de bem-estar. A resposta pode ser consultada neste linque e esclarece a seguinte dúvida: «A palavra bem-estar é um composto morfossintático ou uma palavra derivada por prefixação? Esta pergunta prende-se com o facto de algumas gramáticas indicarem ben-, bene- e bem- como prefixos.» iii. Sobre o verso «Queres‑me passar além?», do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, e o complemento direto -me. O artigo, que se pode ler aqui, defende que «No verso «Queres‑me passar além?», do Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, o pronome me é, de facto, complemento direto. No português vicentino e mesmo contemporâneo, o verbo passar significa «transportar alguém para o outro lado», valor em que funciona como transitivo direto. Assim, a pessoa transportada («me») é o seu objeto direto.» No âmbito da intenção de alargamento da ação do Ciberdúvidas nas redes sociais, foi lançado, como os sócios da APP já sabem, O Ciberdúvidas Vai às Escolas. Este novo projeto leva o Ciberdúvidas às escolas onde se ensina a língua portuguesa, em Portugal e no mundo. Aí, de forma presencial ou à distância, um consultor do Ciberdúvidas esclarece, ao vivo e em direto, as dúvidas que os alunos têm relacionadas com questões gramaticais. Estas sessões são gravadas em formato vídeo e serão divulgadas, posteriormente, nas redes sociais do Ciberdúvidas, no formato de vários pequenos vídeos (ou reels), que dão a conhecer o esclarecimento dado a cada uma das dúvidas apresentadas, de modo a que outros alunos e professores possam ter acesso aos conhecimentos envolvidos, para esclarecer dúvidas ou sistematizar conhecimentos. As escolas interessadas em participar neste projeto, recebendo o Ciberdúvidas presencialmente ou à distância, poderão contactar os responsáveis pelo projeto por correio eletrónico: ciberduvidas@iscte-iul.pt Esta semana, destacamos o vídeo 51 com a resposta à dúvida colocada por um estudante do AE Albufeira Poente, em Albufeira: Em «O João é que foi à praia.», o que é um pronome relativo?? A resposta, dada pela consultora Carla Marques, pode ser consultada no vídeo disponível aqui e explica por que razão a expressão «é que» é uma estrutura de clivagem. Na rubrica Ciberdúvidas Responde, destacamos, no episódio 56, a resposta à pergunta: «Como se escreve: "embaixo" ou "em baixo"?» Assista a este vídeo para saber a resposta, dada pelo consultor Carlos Rocha, que mostra que, no corpus do português, entre outras locuções, «de cima até abaixo» provém de textos de Portugal, enquanto «de cima até embaixo» só figura em textos do Brasil. Fonte da imagem aqui.