Na rubrica Artigos, destacamos dois textos: i. Um artigo, de Carlos Rocha, sobre «Tentante ou o desejo de engravidar» — com uma pequena nota sobre ficante. Excerto do artigo, que pode ser lido aqui: «Chamam-me a atenção para o uso de tentante, e, à primeira vista, nada há de surpreendente. É adjetivo derivado do tema do verbo tentar (tenta-) e significa «que tenta», «tentador» (no sentido de «aquele que procura fazer algo», não no de «aquele ou aquilo que desperta vontade ou desejo»), conforme se pode confirmar em dicionários como o da Infopédia ou no da Priberam. Só que os usos ultrapassam sempre a boa ordem dicionarística, e eis que emerge um novo significado, associado à conversão de tentante em nome. Refiro-me ao emprego desta palavra como o equivalente a «pessoa que procura engravidar», segundo definição disponibilizada em páginas do Brasil, sugerindo que o uso é principalmente brasileiro. No Dicionário Online de Português, um dicionário colaborativo brasileiro, indica-se que tentante, a par da sua definição mais vulgar, adquiriu uma nova aceção no contexto da informação sobre fertilidade: «substantivo feminino [Por Extensão] Aquela que está buscando engravidar ou tem pretensões de o fazer; mulher que está tentando engravidar: a mulher que deixa de usar o contraceptivo é oficialmente uma tentante.»» ii. Um artigo, de João Nogueira da Costa, sobre história e estórias de palavras: «árvore das patacas» — e quatro outras expressões. O artigo, que pode ser lido na íntegra neste linque, refere que «Árvore das patacas – As árvores das patacas devem o seu nome à crendice dos portugueses, como aqui se conta: Árvore da Pataca (Dillenia indica) é originária da Ásia Tropical e foi levada pelos portugueses para o Brasil. De acordo com a lenda existente no folclore brasileiro, Dom Pedro I (na época ainda príncipe) colocou patacas brasileiras (moeda que foi utilizada no Brasil) no interior de várias flores da dita árvore. Um detalhe interessante é que, para formar o fruto, as flores fecham-se sobre si mesmas, aprisionando no seu interior qualquer objeto ali colocado. Após os frutos estarem formados, e com as respetivas patacas no seu interior, Dom Pedro enviou uma caixa para Portugal com a seguinte mensagem: «Nesta terra o dinheiro até nasce nas árvores.» Foi esta ação que deu origem à expressão «árvore das patacas».» Na rubrica Consultório, que permite que os consulentes façam perguntas aos especialistas do Ciberdúvidas – mas verificando primeiro se não existe já uma pergunta que tenha sido feita anteriormente e que responda a essa dúvida –, destacamos, esta semana, três questões: i. Sobre «mesmo» a introduzir oração de gerúndio, a partir da seguinte dúvida: «Na frase «Mesmo chovendo, viajamos», a palavra mesmo é conjunção acidental? Ou qual a classe gramatical da palavra mesmo?» A explicação, que pode ser consultada aqui, defende que «Não há, na tradição gramatical, a terminologia "conjunção acidental". Ademais, orações reduzidas, como é o caso de «Mesmo chovendo» (subordinada adverbial concessiva reduzida de gerúndio), nunca são introduzidas por conjunção. A única classe gramatical que pode, como conectivo, introduzir uma oração reduzida é a preposição. Portanto, o vocábulo mesmo é classificado como preposição acidental...» ii. Sobre parassíntese e o verbo aproximar. A resposta, que pode ser consultada neste linque, defende que «A palavra aproximar é formada por parassíntese (ver nota sobre a terminologia), porque é formada pela anexação de um afixo descontínuo: próximo (adj.) + [a-X-ar] > a-proxim-ar (v.). Isso se verifica pela inexistência das formas *apróximo ou *proximar (consultar o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, por exemplo).» iii. Sobre o complemento do adjetivo merecedor, em resposta à seguinte dúvida de uma professora: «Venho, por este meio, solicitar a sua ajuda no esclarecimento de uma dúvida que surgiu a partir de um exercício de um manual adotado no ensino secundário, no âmbito da distinção entre complemento do nome e modificador do nome. No exercício em questão, verifica-se uma divergência entre as propostas de correção apresentadas no manual digital e no manual em formato físico. No texto: «Álvaro de Campos assume-se como discípulo de Alberto Caeiro […] Febril e furioso, expressa a sua admiração por todas as coisas contemporâneas, incluindo no seu canto elogioso realidades que poucas vezes haviam merecido registo poético, banais e disfóricas, mas merecedoras de exaltação por integrarem a diversidade do mundo moderno.» Na solução do manual digital surge destacada apenas a expressão «de exaltação», com a função de complemento do nome. Já no manual em formato físico aparece destacada a expressão «merecedoras de exaltação», classificada como modificador apositivo do nome. A dificuldade sentida prende-se com o facto de «merecedoras» funcionar como adjetivo, constituindo o núcleo do grupo adjetival, pelo que a expressão «de exaltação» surge dependente desse adjetivo e não diretamente do nome «realidades». Neste sentido, a classificação de «de exaltação» como complemento do nome acaba por gerar alguma ambiguidade, sobretudo para os alunos que recorrem às soluções do manual como apoio ao estudo. Confesso que também me suscitou alguma dificuldade a interpretação das soluções, o que reforça a importância de uma orientação clara para os alunos.» Excerto da explicação, que pode ser lida aqui: «Sobre o nome realidades, o enunciado apresenta a seguinte informação: (1) «que poucas vezes haviam merecido registo poético» (modificador restritivo do nome, sob a forma de grupo oracional); (2) «banais e disfóricas, mas merecedoras de exaltação» (modificador apositivo do nome, sob a forma de grupo adjetival). Sendo «merecedoras» um adjetivo deverbal (deriva do verbo merecer) que seleciona um complemento, isto é, «uma expressão argumental que lhe completa o sentido e que ocorre sempre à sua direita» (Veloso & Raposo, 2013), introduzido por uma preposição (neste caso, a preposição de), pode concluir-se que o constituinte «de exaltação» desempenha a função sintática de complemento do adjetivo.» No âmbito da intenção de alargamento da ação do Ciberdúvidas nas redes sociais, foi lançado, como os sócios da APP já sabem, O Ciberdúvidas Vai às Escolas. Este novo projeto leva o Ciberdúvidas às escolas onde se ensina a língua portuguesa, em Portugal e no mundo. Aí, de forma presencial ou à distância, um consultor do Ciberdúvidas esclarece, ao vivo e em direto, as dúvidas que os alunos têm relacionadas com questões gramaticais. Estas sessões são gravadas em formato vídeo e serão divulgadas, posteriormente, nas redes sociais do Ciberdúvidas, no formato de vários pequenos vídeos (ou reels), que dão a conhecer o esclarecimento dado a cada uma das dúvidas apresentadas, de modo a que outros alunos e professores possam ter acesso aos conhecimentos envolvidos, para esclarecer dúvidas ou sistematizar conhecimentos. As escolas interessadas em participar neste projeto, recebendo o Ciberdúvidas presencialmente ou à distância, poderão contactar os responsáveis pelo projeto por correio eletrónico: ciberduvidas@iscte-iul.pt Esta semana, destacamos o vídeo n.º 2 com a resposta à dúvida colocada por uma estudante da Escola Secundária de Nelas: Como é que se identifica o predicativo do sujeito? A resposta, dada pela consultora Carla Marques, pode ser consultada no vídeo disponível aqui. A rubrica Ciberdúvidas Responde, no episódio 61, aborda o contexto em que se usa a vírgula. Assista a este vídeo para saber a resposta, dada também pela consultora Carla Marques Fonte da imagem aqui.