Destaques do Ciberdúvidas – 6.11.26

Esta semana destacamos três «Artigos», a rubrica «Abertura» e a rubrica «Consultório». No Consultório, refletimos sobre a pontuação em questões de escolha múltipla, analisamos uma estrutura de valor afetivo — e discutimos a origem de «difícil» e «dificultar». Na Abertura, refletimos sobre as palavras estão na rua – o campo lexical do protesto. Nos Artigos, destacamos uma reflexão sobre palavras «de cá e de lá», ou «de aqui e de lá», para exprimir o elogio, uma outra sobre a realidade linguística de Angola e uma terceira sobre funções sintáticas.
Na rubrica Artigos, destacamos três textos:

i. Um artigo, de Carla Marques e Fernando Pestana, «Cavaqueira ou bate-papo», sobre palavras «de cá e de lá», ou «de aqui e de lá», para exprimir o elogio.

Excerto do artigo, que pode ser lido aqui:
«Encontrei recentemente o meu amigo Fernando numa pastelaria (lanchonete). Enquanto tomávamos um café, começámos (começamos) a falar sobre a forma como portugueses e brasileiros elogiam algo ou alguém. Acabámos (Acabamos) a cotejar (cotejando) palavra a palavra, tantas expressões que cá (aqui) e lá se usam para enaltecer.
Comecei por constatar que, se fosse eu, Carla, portuguesa de gema, a avaliar um projeto de sucesso, diria, por certo, «Muito bem! Bestial!».
Já o Fernando esclareceu que um brasileiro diria algo como «Que demais!» ou «Que da hora!».
Ocorreu-me depois (para ele, «Me ocorreu») que em português de Portugal também poderia ter exclamado «Gosto imenso desta notícia!». Seria um pouco mais formal, é verdade, mas também expressaria emoção.
Já o Fernando esclareceu-me que um brasileiro não usaria o verbo gostar, preferiria o verbo adorar e exclamaria com toda a naturalidade «Adorei essa notícia!».»


ii. Um artigo, de Fernando Tchacupomba, intitulado «O professor do Ensino Primário e os desafios do ensino da língua portuguesa» — sobre a realidade linguística de Angola.

Excerto do artigo, que pode ser lido na íntegra neste linque:
««Ao longo das visitas às escolas, tenho encontrado crianças cuja língua materna é diferente da língua utilizada no processo de escolarização.»
Neste ano lectivo, faço parte do grupo de professores responsáveis pelo acompanhamento do estágio pedagógico dos estudantes das Salas Anexas do Magistério do Nambambi, no Lubango, no município de Quilengues, província da Huíla. Esta experiência tem-me permitido conhecer uma realidade educativa que suscita uma reflexão sobre a formação dos professores e os desafios do ensino da Língua Portuguesa em contextos multilingues.
De acordo com o Decreto Presidencial n.º 163/19, de 20 de Maio, posteriormente actualizado pelo Decreto Presidencial n.º 270/24, de 29 de Novembro, Quilengues é classificado como município de tipo D. O artigo 5.º do referido diploma estabelece critérios como o número de habitantes, a densidade populacional e o nível de desenvolvimento económico e social, entre outros factores. Na realidade que tenho observado, as limitações materiais de algumas escolas, incluindo as chamadas salas-árvores, evidenciam dificuldades que condicionam o trabalho docente e as oportunidades de aprendizagem dos alunos.
Contudo, a minha principal preocupação não se limita às condições materiais. Interessa-me reflectir sobre a prática docente e, particularmente, sobre a preparação dos futuros professores para responderem às necessidades linguísticas dos seus alunos.»


iii. Um artigo, de Carla Marques, intitulado «Pronome lhe» — sobre funções sintáticas.

Excerto do artigo, que pode ser lido na íntegra neste linque:
«Que função sintática pode o pronome lhe desempenhar numa frase?
O pronome lhe desempenha frequentemente a função sintática de complemento indireto, na medida em que surge no lugar de um constituinte introduzido pela preposição a, como em «Ofereci um gelado à Rita», que é equivalente a «Ofereci-lhe um gelado». Nestas frases, tanto o constituinte «à Rita» como «lhe» desempenham a função sintática de complemento indireto.»



Na rubrica Abertura, destacamos um texto:

i. Um artigo, da equipa do Ciberdúvidas, intitulado «As palavras estão na rua – o campo lexical do protesto».

Excerto do artigo, que pode ser lido aqui:
«A crise da habitação tem motivado um pouco por todo o lado manifestações mais ou menos intensas, mais ou menos violentas. Portugal não tem sido exceção. O país tem assistido tanto às acampadas (ou às suas tentativas goradas), em Lisboa ou no Porto, como à reação (dita musculada) da polícia. A agitação social e os acontecimentos envolvidos têm aberto portas à construção e alargamento de um campo lexical do protesto, que, gradualmente, tem vindo a integrar mais expressões, fruto dos acontecimentos que têm vindo a ter lugar.
Assim, por um lado, a ação da polícia tem convocado expressões no âmbito da ação violenta, como «carga policial» e bastonada. Na primeira expressão, o nome carga é usado de forma figurada com o valor de «investida impetuosa» e tem sido associado a termos como brutalização («ação de tratar com violência»), uma palavra formada por derivação, na qual o sufixo -ção aponta para a «ação de» e o sufixo -izar funciona como causativo. A segunda palavra, bastonada, entrou no português por via do francês bastonnade e é formada a partir do nome bastão para referir a ação de usar aquele instrumento, dando pancada.»



Na rubrica Consultório, que permite que os consulentes façam perguntas aos especialistas do Ciberdúvidas – mas verificando primeiro se não existe já uma pergunta que tenha sido feita anteriormente e que responda a essa dúvida –, destacamos, esta semana, três questões: 

i. Sobre a pontuação em questões de escolha múltipla.

A resposta pode ser lida aqui e responde a esta dúvida colocada por uma professora:
«Em questões de escolha múltipla, usa-se ponto final ou não em cada opção?
Por exemplo, nas opções a), b) e c):
Ortelius era...
a) cartógrafo.
b) navegador.
c) bispo católico.
Outro exemplo:
As montanhas eram explicadas por Suess, como resultado da...
a) expansão da Terra.
b) contração da Terra.
c) deriva dos continentes.
E escreve-se maiúscula ou minúscula na primeira palavra?»


ii. Sobre uma estrutura de valor afetivo: «aquele burro do seu pai».

A resposta pode ser consultada neste linque e esclarece a seguinte dúvida de um estudante:
«Sobre as frases «Aquele burro do seu pai me deu um prejuízo danado!» ou «Aquele imundo do seu pai...», aqui, os termos que vêm antes do do são o quê sintática e morfologicamente?
Para não dar margem a qualquer ambiguidade, na primeira frase, eu não quis dar um sentido de posse. Eu quis dizer que o pai não é inteligente.»


iii. Sobre a origem de difícil e dificultar.

Pode ser lida neste artigo a resposta à dúvida colocada por um ilustrador, quadrinista, escritor, pintor, letrista e poeta:
«Por que facilitar conserva a sílaba -cil de fácil e dificultar não conserva a mesma sílaba -cil de difícil?»



Fonte da imagem aqui.