Destaques do Ciberdúvidas – 6.3.26

Esta semana destacamos dois «Artigos», a rubrica «Consultório, a rubrica «O Ciberdúvidas Vai às Escolas» e a rubrica «O Ciberdúvidas Responde». No Consultório, refletimos sobre a origem da expressão «fungagá da bicharada», analisamos a expressão «dar gosto» numa construção relativa e examinamos as diferentes nomenclaturas gramaticais entre o Portugal e o Brasil. Nos Artigos, destacamos uma reflexão sobre mitos, falsas associações e interpretações intuitivas sobre a origem de algumas palavras do português — e outra sobre «O prefixo cis- em nomes geográficos», a propósito da Cisjordânia.
Na rubrica Artigos, destacamos dois textos:

i. Um artigo, de Inês Gama, sobre mitos, falsas associações e interpretações intuitivas sobre a origem de algumas palavras do português: «Quando as palavras não contam a história que imaginamos».

Excerto do artigo, que pode ser lido aqui:
«Embora a história das palavras seja um domínio complexo dos estudos linguísticos, a etimologia de certos termos e expressões, frequentemente evocada em conversas informais por simples curiosidade, constitui um terreno particularmente fértil para equívocos. O estudo da origem de algumas palavras e expressões é um domínio, tal como observam alguns especialistas, comummente atravessado por interpretações apressadas e raciocínios intuitivos que, apesar de sedutores, pouco têm de rigor científico.
Existe, para muitos, a tentação de explicar a origem das palavras mediante decomposições morfológicas imediatas ou analogias fáceis, ignorando percursos históricos complexos e diferentes contactos linguísticos.  O caso de albergue, muitas vezes tomado como arabismo por causa do segmento inicial al-, muito frequente em vocábulos de origem árabe, é bem ilustrativo dos mitos que se criam sobre a origem de alguns termos e que estão longe de dar conta da verdadeira história da palavra. A investigação demonstrou que o termo português albergue terá, na realidade, origem no provençal antigo albergue, este, por sua vez, é uma adaptação do gótico *haribairg(o), que significa «acampamento, alojamento». Portanto, a coincidência fonética que alimenta a narrativa tradicional revela-se assim ilusória, recordando que a evolução linguística raramente segue trajetórias tão lineares quanto gostaríamos.»


ii. Um artigo, de João Nogueira da Costa, sobre «O prefixo cis- em nomes geográficos», a propósito da Cisjordânia.

O artigo, que pode ser lido na íntegra neste linque, refere que 
«O prefixo de origem latina cis- significa «deste lado» ou «aquém de», em relação a um ponto de referência geográfico.
É usado para indicar que algo está do mesmo lado de quem fala ou do ponto de vista adotado.

Exemplos:

- Cisjordânia: significa «território deste lado do rio Jordão» (do ponto de vista histórico romano, a ocidente).

- Gália Cisalpina: era a parte da Gália «deste lado dos Alpes» para os romanos (lado atualmente italiano).»



Na rubrica Consultório, que permite que os consulentes façam perguntas aos especialistas do Ciberdúvidas – mas verificando primeiro se não existe já uma pergunta que tenha sido feita anteriormente e que responda a essa dúvida –, destacamos, esta semana, três questões: 

i. Sobre a origem da expressão «fungagá da bicharada».

A explicação, que pode ser consultada aqui,  defende que «Como bem diz o consulente, Fungagá da Bicharada era o título do programa em referência bem como da canção do genérico.

Não parece que a expressão se usasse antes de o programa ter começado, mas compreende-se que a sua criação tenha correspondido ao conceito, que tinha em vista o público infantil: por um lado, apresentava canções originais, a que se fazia alusão pela sonoridade de fungagá e que eram dedicadas a uma série extensa de animais, daí, bicharada


ii. Sobre a expressão «dar gosto» numa construção relativa. Devemos dizer «Escolas que dão gosto renovar» ou «Escolas que dá gosto renovar»? Ou estão ambas corretas?

A resposta, que pode ser consultada neste linque, defende que «A formulação correta é a que se transcreve em (1):
(1) "Escolas que dá gosto renovar."»


iii. Sobre as diferentes nomenclaturas gramaticais entre o Portugal e o Brasil, em resposta à seguinte dúvida de um professor: 

«Por que Brasil e Portugal possuem certas diferenças quanto a denominações, entendimentos e categorizações gramaticais (como, por exemplo, a diferença entre o «futuro do pretérito do modo indicativo» brasileiro e o «modo condicional» português)?

Há alguma razão para tais distinções e discordâncias que vá além dos fatores educacionais ou histórico-tradicionais já consabidos e estudados, tendo em vista que as primeiras normatizações oficiais de cada país a tratarem do assunto foram publicadas – pelo que sei até agora, e peço o perdão caso eu desconheça iniciativas anteriores – com um intervalo de quase uma década separando uma da outra (a Nomenclatura Gramatical Brasileira foi instaurada em 1959 e a Nomenclatura Gramatical Portuguesa, em 1967)?
Sinceramente, nunca entendi totalmente a situação e esta sempre me "aturdiu", especialmente após eu ter começado a pesquisar e a cotejar livros sobre a nossa língua, dicionários e gramáticas.»

Excerto da explicação, que pode ser lida aqui:
«A divergência entre a Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB), de 1959, e a Nomenclatura Gramatical Portuguesa (NGP), de 1967, não foi um "descuido" histórico, mas o resultado de escolhas teóricas e metalinguísticas distintas sobre como a língua deveria ser ensinada e organizada.
Para além do óbvio fator cronológico, existem alguns pilares fundamentais que explicam por que Brasil e Portugal seguiram caminhos diferentes no registro oficial de suas gramáticas.
A maior discórdia (o caso do futuro do pretérito vs. modo condicional) se encontra na interpretação da função dessa forma verbal.
No Brasil, a comissão liderada por nomes como Rocha Lima buscou uma simplificação estrutural. Argumentou-se que o cantaria tem uma origem morfológica ligada ao futuro. Se ele indica uma ação futura em relação a um ponto no passado, ele é, tecnicamente, um tempo. Como mantém uma relação de relativa certeza (mesmo que condicionada), foi agrupado didaticamente no modo indicativo.
Portugal, por sua vez, seguiu a tradição das línguas românicas (como o francês e o espanhol). Para os gramáticos portugueses, a carga de «incerteza» e «hipótese» da forma verbal é tão forte que ela não pode habitar o modo da realidade (indicativo). Portanto, deve ser um modo à parte.»



No âmbito da intenção de alargamento da ação do Ciberdúvidas nas redes sociais, foi lançado, como os sócios da APP já sabem, O Ciberdúvidas Vai às Escolas.

Este novo projeto leva o Ciberdúvidas às escolas onde se ensina a língua portuguesa, em Portugal e no mundo. Aí, de forma presencial ou à distância, um consultor do Ciberdúvidas esclarece, ao vivo e em direto, as dúvidas que os alunos têm relacionadas com questões gramaticais.

Estas sessões são gravadas em formato vídeo e serão divulgadas, posteriormente, nas redes sociais do Ciberdúvidas, no formato de vários pequenos vídeos (ou reels), que dão a conhecer o esclarecimento dado a cada uma das dúvidas apresentadas, de modo a que outros alunos e professores possam ter acesso aos conhecimentos envolvidos, para esclarecer dúvidas ou sistematizar conhecimentos.
As escolas interessadas em participar neste projeto, recebendo o Ciberdúvidas presencialmente ou à distância, poderão contactar os responsáveis pelo projeto por correio eletrónico: ciberduvidas@iscte-iul.pt

Esta semana, destacamos o vídeo n.º 17 com a resposta à dúvida colocada por uma estudante da Escola Secundária Fernando Namora:

Qual a forma certa: «Meio-dia e meia» ou «meio-dia e meio»?

A resposta, dada pela consultora Carla Marques, que recorda que se trata de uma estrutura com uma elipse, pode ser consultada no vídeo disponível aqui.



A rubrica Ciberdúvidas Responde, no episódio 62, continua a abordar a confusão entre os pronomes «o» e «lhe».

Assista a este vídeo para saber a resposta, dada pelo consultor Carlos Rocha.



Fonte da imagem aqui.