Um decassílabo perfeito

Excerto do Podcast "O Poema Ensina a Cair", com entrevista a Gregório Duvidier, e uma breve sequência de O Céu da língua, uma peça em que o ator e autor fala sobre a língua portuguesa, com referências a Luís de Camões.

A propósito da afirmação de Sophia de Mello Breyner Andresen, quando nos diz que “a poesia é oralidade(1)

a propósito da afirmação de Gregório Duvidier, quando nos diz que “A poesia precisa (de) estar onde o povo está.”,

a propósito de se poder desenvolver a capacidade de usufruir a poesia descobrindo a métrica das frases que produzimos e ouvimos à nossa volta,

a propósito da importância de integrar, no tempo curricular destinado ao estudo da gramática, aspetos de Fonologia e Fonética, nomeadamente sobre estrutura métrica e sílaba, enquanto unidade de natureza prosódica integrando acentuação, intensidade e ritmo,

partilhamos nesta ligação um pequeno excerto do Podcast “O Poema Ensina a Cair”, um projeto da autoria de Raquel Marinho, que entrevistou Gregório Duvidier no dia 24/01/2025, e aqui uma breve sequência de  O Céu da língua, uma peça protagonizada por este ator, humorista, letrólogo, roteirista e escritor brasileiro.


Sílaba métrica
A estrutura métrica, além de uma noção de versificação, é um facto linguístico que assenta no conceito de frase fonológica e na distinção entre sílaba gramatical e sílaba métrica.

Gregório Duvidier admira os decassílabos perfeitos de Os Lusíadas e emociona-se com o uso, na linguagem corrente, de decassílabos camonianos com acento principal na 6.ª sílaba, como acontece, por exemplo,  na pergunta trivial “Vai querer contribuinte na fatura?”

Os quadros 1 e 2, a seguir, evidenciam esse paralelismo na oralidade, com base nos padrões silábicos.

  1. Contagem das sílabas métricas do verso “As armas e os barões assinalados”
a sar ma seos ba rõe sa ssi na la dos
V CVC CV CGVC CV CVG CV CV CV CV CVC
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

2. Contagem das sílabas métricas da frase “Vai querer contribuinte na fatura?”

vai que rer con tri buin te na fa tu ra
CVG CV CVC CV CCV CGV CV CV CV CV CV
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Fonte: Freitas, M.J. e A. L. Santos (2001). Contar (histórias de) sílabas. Cadernos de Língua Portuguesa 2. Ed. Colibri/APP, p.111.


(1)

Espero que estes poemas sejam lidos em voz alta, pois a poesia é oralidade. Toda a sua construção, as suas rimas, os jogos de sons, a melopeia, a síntese, a repetição, o ritmo, o número, se destinam à dicção oral.
A poesia é continuação da tradição oral. E é mestra da fala: quem, ao dizer um poema, salta uma sílaba, tropeça, como quem ao subir falha um degrau.
Por isso, para que a leitura em voz alta se entenda e seja bela, é necessário que a dicção seja clara, nítida, bem silabada e bem ritmada. As diferenças de sotaque não criam problema algum, pois cada sotaque tem a sua beleza própria.
Andresen, Sophia de Mello Breyner (1991). Primeiro livro de poesia. Caminho, p.186.