1.º Congresso Internacional Entre Textos / VIII Jornadas Pedagógicas da APP: Entre o texto oral e o texto escrito ­— balanço

A APP e a ESE de Santarém organizaram o 1.º Congresso Internacional Entre Textos (CIET) e as VIII Jornadas Pedagógicas da Associação de Professores de Português. Este evento híbrido teve lugar, no dia 4 de março de 2026, no auditório da ESE de Santarém e na plataforma Teams da escola, com a presença de 70 participantes presenciais, sobretudo alunos da Escola Superior de Educação, e também 70 participantes a distância.
Na sessão de abertura, o presidente da direção referiu que

«Ao longo dos anos, desde o já longínquo 1995, a APP tem respondido, nomeadamente com encontros nacionais e jornadas pedagógicas, entre muitas outras respostas, a um conjunto grande de preocupações: 

Numa situação de ‘tempestade perfeita’, num contexto de insuficiência de professores de Português durante uma década, pelo menos, e em que parece não haver capacidade instalada no ensino superior para responder rapidamente a esta necessidade urgente, e em que cerca de 35% dos alunos nunca ou raramente leem livros ao longo de toda a escolaridade, e em que a escola não sabe muito bem o que fazer, nomeadamente em termos de literacia de leitura, com os alunos que ficam retidos nalgum ano, o que se traduz em resultados escolares fracos, em séries longas de resultados – por ex. na avaliação externa – nesta situação de ‘tempestade perfeita’, como dizíamos, constatamos que os alunos continuam a ler pouco e não aprendem melhor, não conseguindo falar ou escrever sobre um texto com verdadeira autonomia crítica.  

Neste contexto, uma organização conjunta é um exemplo maior de como podemos responder, colaborativamente, a estes desafios, refletindo sobre o modo como os nossos alunos podem construir uma autonomia crítica e discursiva sobre os textos, quaisquer que eles sejam, e sobre o que leem, ampliando o seu repertório linguístico e a sua competência interpretativa. Que tudo isto decorra num espaço mediado pela tecnologia e pela IA é um desafio urgente que mais do que nunca justifica uma reflexão informada e profissional, por sua vez mediada pela ética.

Por isso, esta sala esteja cheia de alunos, futuros professores, é uma promessa de futuro que me apraz assinalar. E, para ser inconveniente, recordo, do fundo dos anos 80, quando estive em Madrid com uma bolsa de estudo, a sugestão do escritor e académico Alonso Zamora Vicente, falecido há precisamente 20 anos (no dia 14), que nos dizia que devíamos de vez em quando faltar às aulas — não para irmos a uma discoteca, digamos, mas para vivermos esse diálogo profundo com a arte e as pessoas que, quer seja numa cidade vibrante como Madrid, ou numa cidade mais pequena e interior, nos torna profundamente humanos. «As humanidades hoje têm de ligar educação, cultura e ciência, saber e saber fazer», está no preâmbulo do PASEO. Por isso, sugeria que atravessássemos as incontáveis salas do Museu do Prado para contemplarmos a beleza transcendente de dois pequeninos quadros de Juan de Flandres, como o Cristo sentado numa pedra fria, que sem essa recomendação passariam talvez despercebidos. 

É por isso tão importante que tenhamos tempo para pensar sobre o que é realmente importante e como podemos ajudar os nossos alunos a terem 
citando uma proposta da APP feita no trabalho em curso de revisão das AE —
«uma melhor fluência da leitura, um conhecimento mais profundo da consciência linguística, uma melhor compreensão dos discursos e dos textos literários, uma melhor expressão oral e uma melhor capacidade para elaborar textos de diferentes géneros, tornando a leitura um hábito diário e um prazer que se desenvolve no prazer de interpretar e de pensar autónoma e criticamente sobre os textos lidos».

Esse é um dos papéis mais importantes de um congresso como este, com um fortíssimo programa, e de duas publicações da APP que destacaria para finalizar. Duas revistas a não perder, ambas baseadas em dois encontros nacionais, uma acabada de publicar, e que os nossos sócios já terão certamente recebido, e a outra, com uma direção renovada, dirigida pela Carla Marques e a Noémia Jorge, que vão estar mais logo, no início da sessão de encerramento, a apresentar a publicação, que está num prelo digital e vai estar em breve em acesso público.»


Imagem da conferência de abertura 

O programa conjunto, que se constituiu como uma ACD de 6 horas, teve uma conferência inaugural de Noémia Jorge, sobre «O texto (escrito, oral, multimodal) nos documentos normativos e na avaliação externa», e uma conferência plenária de Teresa-Cláudia Tavares, sobre «O texto oral e a IA», no final da tarde.

Entre as duas conferências, um conjunto de várias comunicações por especialistas da Escola Superior de Santarém, da Universidade de Coimbra, da Universidade Aberta e da UNESP-Brasil, entre outras instituições: «Entre a voz e o papel: convergências e fronteiras», «Uma sequência de ensino para a escrita de fábulas no 2.o ciclo do ensino básico: a importância dos textos mentores», «Tecendo Vozes, Tecendo Textos: a Escrita Criativa na Didática da Literatura», «Entre tessituras e rascunhos: atividades de Oralidade (compreensão) e Escrita com Inteligência Artificial Generativa, na sala de aula de Português», «Leitura, escrita e inteligência artificial em contexto escolar», «O motor de busca do texto livre».


Imagem dos trabalhos no início da tarde


O debate foi bastante intenso e participado, inclusive por parte dos estudantes, e a riqueza das comunicações poderá ser estudada e compreendida em maior profundidade com a publicação, no segundo semestre deste ano, do n.º 65 da revista Palavras, que vai lançar em breve uma chamada de trabalhos para publicação, tendo em conta o tema deste congresso / jornadas pedagógicas: o texto oral e o texto escrito, na sua relação dinâmica e atendendo às suas especificidades estruturais, funcionais e discursivas, bem como aos processos de continuidade, interdependência e transformação que caracterizam ambas as modalidades. 

A revista Palavras n.º 65 fará, no editorial, um balanço mais exaustivo dos trabalhos deste congresso / jornadas pedagógicas, destacando uma reflexão teórica-didática sobre o conceito de texto, a relação entre oralidade e escrita, organizada num continuum marcado por convergências e especificidades, a didática da escrita e o papel estruturante dos textos mentores, a reflexão sobre a inteligência artificial como copiloto nos processos de planificação, textualização, revisão, correção, reescrita e compreensão do oral e da escrita, desde que integrada num desenho didático rigoroso, crítico e eticamente informado, e, entre outros, uma reflexão alargada e pertinente sobre oralidade e inteligência artificial, convidando-nos a pensar novas formas de interação humano–máquina, novas categorias de polidez e novas questões éticas e pragmáticas. 


Mais informações em breve!




Imagem do início da sessão de encerramento, com a apresentação da revista Palavras n.º 64, que vai ser publicada na próxima semana, e a capa da revista n.º 62/63, que foi publicada esta semana