Citação da semana – 22.mai.26

Citação da semana – Diogo Madre Deus
«A inteligência artificial já é um desafio para o editor?

É, sim, cada vez mais. Ainda se consegue identificar o que é um texto vindo de inteligência artificial, mas vai tornar-se cada vez mais difícil. E o problema nem é isso, o problema é se o público estará ou não interessado — neste momento está — na proveniência desse texto.

Falávamos há pouco, em off, sobre as alterações nos hábitos de leitura, nos tipos de literatura que têm vindo a ter mais adesão. Isso também é uma questão desafiante?

Vou dizer uma coisa que não é muito do agrado de muita gente. Em Portugal, o ato de ler sempre foi elitista, não só ler, mas de consumir cultura. Nos últimos anos difundiu-se essa ideia generalizada, muito politizada, de que há mais leitores e de que estamos a avançar para uma sociedade com mais leitores e isso é tudo muito festejado. Mas eu distingo entre bons e maus leitores.

Não basta ler?

Não basta ler. Há livros que mais valia não ler, na minha opinião. Não acho que tragam nada de positivo. Muitos deles nem sequer estão bem escritos, nem se aprende português. O que existe em Portugal são fenómenos de consumidores que entram no mercado do livro, consomem determinados produtos que a indústria do livro lhes proporciona, e depois saem do mercado. Ou seja, leitores ocasionais que entram e saem e que aumentam essa estatística dos livros. Mas a verdadeira base de leitores, aquela que alimenta o mercado e a indústria editorial, são aqueles leitores de base, que sabem escolher, que têm um percurso de leitura. E essa base está a diminuir, não está a aumentar. Os grandes leitores estão a ler menos porque não têm tempo para isso, estão distraídos com a quantidade de tecnologia que existe, e com a forma de leitura que neste momento se está a instalar na sociedade. Eu diria que esse é talvez o maior problema. A forma como lês, como te obrigam a ler hoje em dia, no meio de tanta produção: estão a obrigar-te a ser um consumidor e não um leitor. Lê-se também de forma mais fragmentada, com a ânsia de não se ter tempo para o fazer ou com a ansiedade de haver demasiada coisa, sem espaço mental nem tempo para te isolares do mundo e desfrutares desse tempo de leitura.

Estive o ano passado num colóquio de editores internacionais e havia um muito novo, espanhol, que dizia que era um leitor e editor fragmentado, no sentido em que as referências dele são diferentes, é uma colagem de várias pequenas leituras. Isso é que coloca em perigo uma base sólida de leitores e de leituras. E já foi repetido mil e uma vezes ao longo do século XXI, e que ainda é válido hoje em dia, o livro ainda é a melhor forma de aceder à cultura e a forma como se acede e se desfruta a essa forma é muito importante e é isso que está a ser alterado. Não estou a dizer com isto que não continue a haver leitores e bons leitores, mas fazem parte de uma minoria.»


Diogo Madre Deus (2026). Entrevista. Diogo Madre Deus, editor da Cavalo de Ferro: “Hoje, obrigam-te a ser um consumidor e não um leitor”. Comunidade Cultura e Arte em linha, 12 de maio de 2026.




Entrevista na íntegra e fonte da imagem aqui.