Na rubrica Artigos, destacamos dois textos: i. Um artigo de Miguel Copetto sobre uma língua sem política e os riscos da inércia. Um excerto do artigo, que pode ser lido na íntegra neste linque: «Há ideias que, pela sua repetição, se transformam em evidência incontestada. Uma delas é a de que o português é uma grande língua global, falada por mais de 260 milhões de pessoas em vários continentes. A afirmação é apenas parcialmente verdadeira, e é nessa parcialidade que reside o problema. Porque fora de Portugal e do Brasil, o português raramente é a língua que estrutura a vida quotidiana das sociedades — sendo que, no caso brasileiro, essa centralidade não assenta numa estratégia externa de promoção da língua. Em Timor-Leste, é a língua materna de menos de 1% da população, sendo o tétum dominante, enquanto o inglês e o indonésio ganham espaço nas relações externas. Em Moçambique, apenas cerca de 17% da população fala português como língua materna e menos de metade o utiliza com regularidade. Em Angola, apesar do crescimento nas áreas urbanas, a realidade continua marcada por uma forte coexistência com línguas nacionais, como o umbundu, o kimbundu ou o kikongo. Nos casos de Guiné-Bissau e Cabo Verde, o português é a língua oficial — mas não é a do dia-a-dia, lugar ocupado pelos crioulos.» ii. Um artigo de Inês Gama sobre a diferença entre «a ver» e «haver» — e os seus usos corretos. Excerto do artigo, que pode ser lido na íntegra aqui: «Na frase «Não tenho nada a ver com essa decisão.», «a ver» escreve-se separado e sem h, ou junto com h? A forma correta é «a ver», separado e sem h. Trata-se da preposição a seguida do verbo ver, e é uma expressão que indica nexo ou relação. Por isso, dizemos, por exemplo, «uma coisa não tem nada a ver com a outra»; «a alimentação que fazemos tem tudo a ver com a saúde que temos»; ou ainda «tu não tens nada a ver com isso». No fundo, usamos esta expressão para dizer que alguma coisa diz respeito a outra.» Na rubrica Consultório, que permite que os consulentes façam perguntas aos especialistas do Ciberdúvidas – mas verificando primeiro se não existe já uma pergunta que tenha sido feita anteriormente e que responda a essa dúvida –, destacamos, esta semana, três questões: i. Sobre a palavra «gandula» e a sua origem. Excerto da explicação, que pode ser consultada aqui: «Por um lado, o adjetivo e substantivo gandulo/gandula, com o sentido de «vadio», «parasita», «desocupado», é antigo e não tem relação com o futebolista Bernardo Gandulla. Tanto o adjetivo como o nome gandulo/gandula tem origem provável no galego gandulo (1858), este, do espanhol gandul (sXV) que, por sua vez, tem origem no árabe gandûr, que significava «jovem de classe modesta, que afeta elegância, procura agradar as mulheres e vive sem trabalhar, às vezes pegando em armas» (Houaiss). Por outro lado, o Houaiss regista também um segundo vocábulo: gandula (1975) «aquele que apanha e devolve aos jogadores as bolas que saem do campo durante uma partida de futebol, tênis, etc». E, neste caso específico do sentido desportivo, o próprio Houaiss indica origem antroponímica: «do antropônimo Bernardo Gandulla, jogador de futebol do Vasco da Gama no final da década de 1930, que tinha o hábito de buscar as bolas que saíam de campo».» ii. Sobre a modalidade epistémica em «reza a lenda que...». A resposta, que pode ser lida aqui, responde a esta dúvida colocada por uma estudante: «Na frase «Reza a lenda que foi a nossa Catarina que levou o chá para Inglaterra.», está presente a modalidade epistémica com valor de probabilidade?» iii. Sobre «pelo» no começo de oração de infinitivo (arcaísmo). O artigo, que pode ser lido aqui, responde à seguinte dúvida: «Na tradução de António Feliciano de Castilho (1800-1875) das Metamorfoses, no episódio de Io, há essa passagem: lha em torno de si, não vê o esposo; e suspeitosa, pelo haver colhido já vezes cento em amorosos furtos, não o achando nos céus, — Ou eu me engano, ou lá me agravam — diz.» Parece que pelo aqui é per mais o pronome o, e não o artigo definido o. Isso é possível? Ou seria melhor "pelo o haver colhido"?» No âmbito da intenção de alargamento da ação do Ciberdúvidas nas redes sociais, foi lançado, como os sócios da APP já sabem, O Ciberdúvidas Vai às Escolas. Este novo projeto leva o Ciberdúvidas às escolas onde se ensina a língua portuguesa, em Portugal e no mundo. Aí, de forma presencial ou à distância, um consultor do Ciberdúvidas esclarece, ao vivo e em direto, as dúvidas que os alunos têm relacionadas com questões gramaticais. Estas sessões são gravadas em formato vídeo e serão divulgadas, posteriormente, nas redes sociais do Ciberdúvidas, no formato de vários pequenos vídeos (ou reels), que dão a conhecer o esclarecimento dado a cada uma das dúvidas apresentadas, de modo a que outros alunos e professores possam ter acesso aos conhecimentos envolvidos, para esclarecer dúvidas ou sistematizar conhecimentos. As escolas interessadas em participar neste projeto, recebendo o Ciberdúvidas presencialmente ou à distância, poderão contactar os responsáveis pelo projeto por correio eletrónico: ciberduvidas@iscte-iul.pt Esta semana, destacamos o vídeo n.º 2 com a resposta à dúvida colocada por um estudante da Escola Secundária de Nelas: Como é que se identifica o predicativo do sujeito? A resposta, dada pela consultora Carla Marques, pode ser consultada no vídeo disponível aqui e começa por referir que o predicativo do sujeito é uma função sintática dependente de verbos copulativos. A rubrica Ciberdúvidas Responde, no episódio 72, fala sobre o travessão e a IA — mito ou estilo? Assista a este vídeo para saber a resposta, dada pela consultora Carla Marques, que começa por assinalar que se ouve dizer, com frequência, que um texto com muitos travessões é sinal de ter sido escrito pela inteligência artificial. E parece haver um fundo de verdade nisso. Fonte da imagem aqui.