Destaques do Ciberdúvidas – 17.4.26

Esta semana destacamos a «Montra de Livros», a rubrica «Artigos, a rubrica «Consultório, a rubrica «O Ciberdúvidas Vai às Escolas» e a rubrica «O Ciberdúvidas Responde». No Consultório, refletimos sobre orações relativas não canónicas, discutimos o predicativo do sujeito em «está bem onde não cabe» e analisamos a locução «em relação a». Na Montra de Livros, destacamos uma obra sobre «As Raízes da Língua». Nos Artigos, destacamos dois textos: um artigo sobre as formas possíveis do superlativo absoluto sintético do adjetivo «são» e outro sobre o que a polémica sobre as leituras obrigatórias diz sobre a escola e os leitores que formamos.
Na Montra de Livros, destacamos um texto:

i. Um artigo, de Sara Mourato, «As Raízes da Língua» — sobre a obra homónima de Marco Neves.

Excerto do artigo, que pode ser lido aqui:
«O mais recente livro de Marco Neves (linguista, tradutor e divulgador da língua portuguesa) chega aos leitores pela editora Guerra e Paz. Publicado em março de 2026, As Raízes da Língua propõe uma viagem acessível e envolvente pela história do português através de 50 palavras do quotidiano, revelando as origens diversas e inesperadas que se escondem na língua que usamos todos os dias.
Longe de se apresentar como um dicionário etimológico ou uma obra técnica, o livro organiza-se em pequenas crónicas que contam as aventuras das palavras, mostrando os caminhos, por vezes surpreendentes, que estas percorreram até chegarem à forma atual. A partir de termos simples e familiares, como mãeverãolivrocafé ou água, o autor conduz o leitor por episódios históricos, contactos culturais e transformações linguísticas que ajudam a compreender a riqueza do português.»



Na rubrica Artigos, destacamos dois textos:

i. Um artigo de Carla Marques, intitulado «Sãozíssimo? Saníssimo? «Muito são»?», sobre as formas possíveis do superlativo absoluto sintético do adjetivo são.

Excerto do artigo, que pode ser lido aqui:
«A forma correta do grau superlativo absoluto sintético do adjetivo são é saníssimo ou, então, sãozíssimo.
Esta forma encontra a sua razão de ser na etimologia da palavra. Os adjetivos são e  provêm das palavras latinas sanu- e sana-. Daí que os superlativos absolutos sintéticos se possam formar a partir da base latina, que tem a forma san- e à qual se acrescenta o sufixo de grau -íssimo


ii. Um artigo de Inês Gama, intitulado «A Inaudita Guerra do Ensino de Português ou Ensaio sobre a Revisão do Currículo Escolar», sobre o que a polémica sobre as leituras obrigatórias diz sobre a escola e os leitores que formamos.

A autora defende que «a polémica em torno da revisão das AE para a disciplina de Português parece dizer menos sobre a presença ou ausência de determinados autores no currículo e mais sobre a forma como concebemos a educação literária.»

Excerto do artigo, que pode ser lido na íntegra aqui: 
«Nos últimos dias, tem sido debatida a proposta de revisão das Aprendizagens Essenciais (AE), atualmente em consulta pública até 28 de abril. Este documento, que define o núcleo fundamental de conhecimentos, capacidades e atitudes a desenvolver ao longo do ensino obrigatório, ocupa atualmente um lugar central na arquitetura do sistema educativo. Embora a proposta abranja todas as disciplinas e áreas curriculares, foi a disciplina de Português que concentrou maior atenção mediática e gerou maior controvérsia. Em particular, a possibilidade de, no 12.º ano, os professores poderem optar entre dois romances de José Saramago, Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis, e o romance Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, de Mário de Carvalho, foi interpretada por muitos como uma rutura simbólica com um cânone literário escolar até agora percecionado como estável.
Não surpreende, por isso, que, com notável rapidez, e quase como se de um cenário de guerra se tratasse, se tenham formado trincheiras discursivas bem delimitadas. De um lado, os habituais indignados, alarmados com a “suposta não obrigatoriedade” da leitura de Saramago no ensino secundário. Do outro, vozes mais cautelosas que acolheram a mudança como uma oportunidade de diversificação e reflexão pedagógica. Como futura professora de Português no 3.º ciclo do ensino básico e no ensino secundário, assisti a esta “pequena polémica” com um misto de entusiasmo e, confesso, algum prazer. Num país que historicamente tem formado poucos leitores e onde os dados mostram dificuldades persistentes na interpretação e compreensão de textos literários complexos, o simples facto de a educação literária ocupar espaço no debate público é, em si mesmo, um motivo para, neste mundo à beira da ebulição, se esboçar um pequeno sorriso. Contudo, discutir que obras se leem na escola não é um mero capricho das elites culturais e educativas, mas mostra capacidade de uma comunidade refletir sobre que tipo de formação literária, crítica e cidadã se deseja promover. Neste sentido, esta controvérsia revela, talvez contra as minhas expectativas, que a sociedade portuguesa continua a reconhecer a educação, e, em particular, a educação literária, como uma questão relevante.»



Na rubrica Consultório, que permite que os consulentes façam perguntas aos especialistas do Ciberdúvidas – mas verificando primeiro se não existe já uma pergunta que tenha sido feita anteriormente e que responda a essa dúvida –, destacamos, esta semana, três questões: 

i. Sobre orações relativas não canónicas.

A explicação pode ser consultada aqui e responde à seguinte dúvida de um professor: 
«Tenho notado que há um hábito muito comum e cada vez mais generalizado de utilização das expressões «aquilo que é/daquilo que é/ aquilo que são/daquilo que são» principalmente em contexto de comentário televisivo.
Exemplos: «[Aquilo que é] a origem do conflito…..», «A origem d[aquilo que é] a vida….», «Não sabemos [aquilo que são] as intenções do Presidente….», «Estamos a par [daquilo que é] o impacto desta guerra», «Estamos conscientes d[aquilo que é] a devastação provocada….».
Poderíamos até complicar mais: «[Aquilo que é] a origem d[aquilo que é] este conflito».
Todos estes «aquilo que é» são perfeitamente suprimíveis das respetivas frases: «A origem da vida…», «Não sabemos as intenções do Presidente», «Estamos a par do impacto desta guerra», «Estamos conscientes da devastação provocada».
Penso que o recurso a esta irritante expressão se deve ao facto de constituir uma espécie de muleta de linguagem, no sentido de dar mais tempo ao orador para pensar no que vai dizer a seguir, o que se compreende (similarmente ao uso de outras muletas mais óbvias como “â” ou “portanto”), muleta essa perfeitamente dispensável.
De qualquer modo gostaria de saber se semanticamente a expressão acrescenta algo (como uma espécie de focalização ou clivagem no sentido de destacar um dos elementos da frase) e gostaria também de saber como classificar essas orações do ponto de vista sintático.
Para ilustrar, vejamos o caso concreto da seguinte frase simples:
«A origem da vida é um mistério.»
Transformando-a na seguinte frase complexa:
«Aquilo que é a origem da vida é um mistério.»
Ficamos com uma oração substantiva relativa sem antecedente (com a função de sujeito) seguida da respetiva subordinante? Ou, contrariamente, devemos assumir que continuamos perante uma frase simples que foi “complexificada” por um elemento discursivo redundante típico da oralidade?
Por outro lado, parece-me que por vezes estas orações artificiais são substantivas completivas, noutros casos substantivas relativas, ou até ponho a hipótese de serem adjetivas relativas, mas sempre perfeitamente dispensáveis.»


ii. Sobre o predicativo do sujeito em «está bem onde não cabe».

A resposta, que pode ser lida aqui, responde a esta dúvida colocada por um professor: 
«Recentemente, foi lançado um álbum (de Ricardo Ribeiro) intitulado A alma só está bem onde não cabe. Curiosamente, lembrei-me logo de um verso de uma música mais antiga, de António Variações: «só estou bem aonde não estou».
Gostaria de saber qual a função sintática das respetivas orações subordinadas substantivas relativas («onde não cabe» / «aonde não estou»). Pergunto isto porque o verbo estar tanto pode selecionar predicativos do sujeito com valor de estado (neste caso «bem») como com valor locativo / espacial («onde não cabe»), o que abre a possibilidade de estarmos na presença de dois predicativos do sujeito.
Tentando explicar o cerne da minha dúvida, importaria analisar outras frases:
1) Ele está bem.
O constituinte «bem» é predicativo do sujeito.
2) Ele está em casa.
O constituinte «em casa» é predicativo do sujeito.
Pesquisei e não encontrei frases com dois predicativos do sujeito a não ser quando separados por e.
Exemplo:
3) «Ele está bem e em casa.»
Mas aqui compreende-se, pois parece existir uma elipse: «Ele está bem e [ele está] em casa.» Ou em «Ele está feliz e calmo» («Ele está feliz e [ele está] calmo»).
Ora, semanticamente, «Ele está bem em casa» é diferente de «ele está bem e em casa», pois no primeiro caso subentende-se uma relação “simbiótica” entre as tuas predicações, inseparáveis uma da outra.
Assim, estas frases deveriam ser analisadas de forma diferente? Um dos constituintes seria modificador ou complemento oblíquo e o outro predicativo do sujeito? A questão é como fazer essa escolha.
Concluindo, queria apenas que me esclarecessem se na frase em apreço («A alma só está bem onde não cabe») estamos perante a presença de dois predicativos do sujeito («bem» e «onde não cabe») ou se existe outra análise possível.»


iii. Sobre a locução «em relação a» no enunciado «Escolha a opção correta em relação com o texto que vai ouvir.»

Excerto da explicação, que pode ser lida aqui:
«Nos instrumentos de normalização linguística consultados, não se faz referência à locução prepositiva (ou preposicional) «em relação com», presente na frase «Escolha a opção correta [em relação com] o texto que vai ouvir.».
A locução correta é «em relação a», a que o Dicionário da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa, e o Novo Dicionário Estrutural, Estilístico e Sintáctico, da Lello Editores, fazem alusão, apresentando uma base preposicional: SP preposição + nome (Raposo, 2013). Esta locução prepositiva equivale, no contexto em causa, a:
(1) «Escolha a opção correta quanto ao texto que vai ouvir.» ou «Quanto ao texto que vai ouvir, escolha a opção correta.»
(2) «Escolha a opção correta relativamente ao texto que vai ouvir.» ou «Relativamente ao texto que vai ouvir, escolha a opção correta.»
(3) «Escolha a opção correta face ao texto que vai ouvir.» ou «Face ao texto que vai ouvir, escolha a opção correta.»
(4) «Escolha a opção correta no que diz respeito ao texto que vai ouvir.» ou «No que diz respeito ao texto que vai ouvir, escolha a opção correta.»
(5) «Escolha a opção correta no que concerne ao texto que vai ouvir.» ou «No que concerne ao texto que vai ouvir, escolha a opção correta.».»



No âmbito da intenção de alargamento da ação do Ciberdúvidas nas redes sociais, foi lançado, como os sócios da APP já sabem, O Ciberdúvidas Vai às Escolas.

Este novo projeto leva o Ciberdúvidas às escolas onde se ensina a língua portuguesa, em Portugal e no mundo. Aí, de forma presencial ou à distância, um consultor do Ciberdúvidas esclarece, ao vivo e em direto, as dúvidas que os alunos têm relacionadas com questões gramaticais.
Estas sessões são gravadas em formato vídeo e serão divulgadas, posteriormente, nas redes sociais do Ciberdúvidas, no formato de vários pequenos vídeos (ou reels), que dão a conhecer o esclarecimento dado a cada uma das dúvidas apresentadas, de modo a que outros alunos e professores possam ter acesso aos conhecimentos envolvidos, para esclarecer dúvidas ou sistematizar conhecimentos.
As escolas interessadas em participar neste projeto, recebendo o Ciberdúvidas presencialmente ou à distância, poderão contactar os responsáveis pelo projeto por correio eletrónico: ciberduvidas@iscte-iul.pt

Esta semana, destacamos o vídeo n.º 57 com a resposta à dúvida colocada por uma estudante do Agrupamento de Escolas de Condeixa-a-Nova: 
Como se distingue um complemento oblíquo numa frase?

A resposta, dada pela consultora Carla Marques, que recorda que o complemento oblíquo é uma parte do grupo verbal que se liga diretamente ao verbo, mostrando uma relação muto próxima com ele, pode ser consultada no vídeo disponível aqui.



A rubrica Ciberdúvidas Responde, no episódio 68, fala-nos do pronome relativo que enquanto sujeito do verbo ser.

Assista a este vídeo para saber a resposta, dada pelo consultor Fernando Pestana.




Fonte da imagem aqui.