Na rubrica Artigos, destacamos dois textos: i. Um artigo, de Sara Mourato, «De auge a Hauge», sobre uma piada que a UEFA nos trouxe. Excerto do artigo, que pode ser lido aqui: «A piada surge de forma curiosa na notícia da SIC Notícias, publicada a 17 de março de 2026, com o título «O empurrão da UEFA ao Sporting», onde, num jogo de palavras no subtítulo, aparece escrito Hauge em vez de auge: «No Hauge da forma». E não, não se está a filosofar sobre picos de carreira: está-se a falar do norueguês Jens Petter Hauge, que dá nome à perfeita piada que se pode fazer sobre o momento do Sporting na Europa. Uma simples troca de uma letra transforma o conceito de «apogeu» em referência a um jogador que acabou por estar associado a um empurrão da UEFA no caminho europeu dos leões. O substantivo auge, usado em português para designar o ponto mais elevado ou intenso que algo pode atingir tem uma origem curiosa. Segundo o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, o termo augeprovém do árabe auj, com o significado de apogeu.» ii. Um artigo, de Carlos Rocha, sobre «Reserva-se o direito»... e nunca «reserva-se "ao" direito». O artigo, que pode ser lido na íntegra neste linque, refere que «A escalada na guerra com o Irão é tema de notícias e comentários, e a reincidência num erro já antigo volta a ter registo em dois canais de notícias na televisão em Portugal [NOW e CNN]. O que se transcreve nas duas epígrafes [«... em direto, de Riade, onde a esta hora o ministro dos Negócios estrangeiros fala, e para dizer que a Arábia Saudita se reserva ao direito de tomar decisões e ações militares contra o Irão.» e «... mas também noutras instalações energéticas, por exemplo, na Arábia saudita, que já promete nesta altura uma resposta militar, reserva-se ao direito de retaliar contra o Irão.», respetivamente] pode bem atestar como o uso erróneo de «reservar-se ao direito» ameaça instalar-se na língua mediática. Importa, portanto, relembrar que o verbo reservar ocorre fundamentalmente de acordo com o esquema «reservar alguma coisa a/para alguém», em que o segundo complemento («a/para alguém») pode ser omitido.» Na rubrica Consultório, que permite que os consulentes façam perguntas aos especialistas do Ciberdúvidas – mas verificando primeiro se não existe já uma pergunta que tenha sido feita anteriormente e que responda a essa dúvida –, destacamos, esta semana, três questões: i. Sobre o verbo perder: por que razão a 1.ª pessoa do presente do indicativo de perder é perco em português?' A explicação pode ser consultada aqui e alega que «O verbo perder vem do latim perdō, perdĕre («perder, destruir, arruinar») e, portanto, seria de esperar que a primeira pessoa do presente do indicativo fosse "perdo", que, aliás, não é desconhecida dialetalmente. Contudo, a forma correta é perco, uma irregularidade que não procede diretamente do latim, mas que terá surgido por interferência analógica do verbo vencer.» ii. Sobre a locução adverbial «ainda assim» — pode ser considerada locução concessiva?' A resposta, que pode ser consultada neste linque, começa por notar que «ainda assim» é «uma locução adverbial, que pode ter um funcionamento com diferentes valores. Deste modo, a locução «ainda assim» pode funcionar como conector entre duas orações com o (i) valor de contraste: (1) «O filme era pouco interessante, ainda assim vi-o até ao fim.» (ii) valor concessivo: (2) «O João reprovou no exame; ainda assim, estudou muito.» «ainda assim» pode também introduzir uma frase, estabelecendo uma conexão com a frase anterior ou com um segmento de texto anterior mais alargado: (3) «Não ajo, porém, em conseqüência. Não sei a origem do Orestes, mas nunca tive dúvida de que vem de um meio ímpio. Diante de um ato religioso, foi sempre indiferente como uma pedra. Nem deve ter consciência de que fugiu na Quaresma. Ainda assim, hoje me surpreendi fazendo uma promessa, contrito, para que ele volte logo e a sua fuga não traga prejuízo à instituição.» (Otto Lara Resende, O Braço Direito, 1963)] iii. Sobre Nomes de matéria: «sapatos de couro», a partir da seguinte dúvida de uma estudante: Na frase «Os sapatos de couro são os meus preferidos», a expressão «de couro» é complemento do nome?' Excerto da explicação, que pode ser lida aqui: «A questão colocada não tem uma resposta inequívoca, uma vez que a estrutura em questão é vista de forma diversa por diferentes autores. O grupo nominal «os sapatos de couro» é formado por um nome nuclear, sapatos, e por um grupo preposicional que incide sobre ele, «de couro», o qual dá uma informação sobre o material de que é feito. No quadro da Gramática da Língua Portuguesa, coordenada por Maria Helena Mira Mateus, os nomes de matéria podem ser considerados complementos do nome, em casos como «mesa de vidro», «fato de seda», uma vez que estes nomes explicitam uma característica interna ao próprio nome nuclear, a matéria de que são feitos. Não obstante, na Gramática do Português, coordenada por E. P. Raposo, os sintagmas preposicionais que apresentam a matéria são interpretados como sintagmas classificadores, que incidem sobre o nome, modificando-o. São, por esta razão, classificados como modificadores do nome restritivos.» No âmbito da intenção de alargamento da ação do Ciberdúvidas nas redes sociais, foi lançado, como os sócios da APP já sabem, O Ciberdúvidas Vai às Escolas. Este novo projeto leva o Ciberdúvidas às escolas onde se ensina a língua portuguesa, em Portugal e no mundo. Aí, de forma presencial ou à distância, um consultor do Ciberdúvidas esclarece, ao vivo e em direto, as dúvidas que os alunos têm relacionadas com questões gramaticais. Estas sessões são gravadas em formato vídeo e serão divulgadas, posteriormente, nas redes sociais do Ciberdúvidas, no formato de vários pequenos vídeos (ou reels), que dão a conhecer o esclarecimento dado a cada uma das dúvidas apresentadas, de modo a que outros alunos e professores possam ter acesso aos conhecimentos envolvidos, para esclarecer dúvidas ou sistematizar conhecimentos. As escolas interessadas em participar neste projeto, recebendo o Ciberdúvidas presencialmente ou à distância, poderão contactar os responsáveis pelo projeto por correio eletrónico: ciberduvidas@iscte-iul.pt Esta semana, destacamos o vídeo n.º 32 com a resposta à dúvida colocada por um estudante do Agrupamento de Escolas Verde Horizonte, Mação: Qual a diferença entre “senão” e “se não”? A resposta, dada pela consultora Carla Marques, que recorda que senão pode ser um nome ou um conector — e ao funcionar como conector, pode ser uma conjunção, um advérbio ou preposição —, pode ser consultada no vídeo disponível aqui. A rubrica Ciberdúvidas Responde, no episódio 64, responde à seguinte dúvida: Os nomes começados por al- têm sempre origem árabe? Assista a este vídeo para saber a resposta, dada pelo consultor Carlos Rocha. Fonte da imagem aqui.