Na rubrica Artigos, destacamos dois textos: i. Um artigo de Sara Mourato sobre as leituras do verbo fazer. Um excerto do artigo, que pode ser lido na íntegra neste linque: «O debate em torno da linguagem política traz frequentemente à tona questões de uso, significado e influência entre línguas, como aqui, por exemplo, já se viu. A propósito da recandidatura de Luís Montenegro à liderança do PSD, o slogan adotado, «Fazer Portugal Maior», suscitou observações que vão além do plano político, tocando em aspetos de natureza linguística, nomeadamente a forma como certas construções se aproximam de modelos discursivos internacionais.» ii. Um artigo de Carlos Rocha sobre uma trezena — e o sufixo -ena e o mês de junho de Lisboa. Excerto do artigo, que pode ser lido na íntegra aqui: «Em Lisboa, aproximam-se as festas de junho, e, no meio de preparativos e programas, lê-se «Trezena a Santo António», conforme a imagem ao lado. Comecemos por explicar que trezena significa «um conjunto de treze unidades» e, portanto, como dezena, vintena ou trintena, é um numeral coletivo, o que se pode confirmar com uma consulta da Gramática do Português da Fundação Calouste Gulbenkian. Contudo, trezena ocorre ainda em aceção religiosa: «devoção ou rezas durante treze dias consecutivos». Assim, começando em 1 de junho e até ao dia de Santo António, que calha a 13 do mesmo mês, o que se anuncia na imagem é uma festa comunitária, de raiz religiosa com o seu quê de profano.» Na rubrica Consultório, que permite que os consulentes façam perguntas aos especialistas do Ciberdúvidas – mas verificando primeiro se não existe já uma pergunta que tenha sido feita anteriormente e que responda a essa dúvida –, destacamos, esta semana, três questões: i. Sobre o verbo pensar com interrogativa indireta. O artigo, que pode ser consultado aqui, responde à seguinte dúvida de uma professora: «Na frase «Pensei o que terá sido o maravilhamento e o espanto dos homens que chegaram aqui, sem terem visto um mapa...», como se classifica a oração «o que terá sido o maravilhamento...»? Na minha opinião é uma oração substantiva relativa. Mas alguns alunos disseram que é uma oração substantiva completiva. Agradecia que me dissesse qual a classificação certa.» ii. Sobre paradoxo e oxímoro. A resposta, que pode ser lida aqui, responde a esta dúvida colocada por um professor: «Agradecia que, se possível, me pudessem esclarecer quanto à diferença entre oxímoro e paradoxo. O que eu achava que sabia: a antítese apresenta uma oposição entre dois termos sem contradição lógica e o paradoxo ou oxímoro combinam essa mesma oposição com uma contradição lógica evidente. Ou seja, nunca distingui paradoxo de oxímoro ou, se quisermos, encarei sempre o oxímoro como outra palavra, mais apropriada em contexto literário ou estilístico para o termo paradoxo, este mais filosófico e abrangente. Mas eis então o que consta no dicionário terminológico e que me sobressaltou: “Oxímoro: Figura retórica de pensamento que associa duas palavras com significados logicamente opostos ou incompatíveis. Tem afinidades com o paradoxo e com a antítese, mas, enquanto esta figura encerra uma oposição lógico-semântica, o oxímoro é uma associação de palavras contrária à lógica. “Aquela triste e leda madrugada”“ (Camões). Paradoxo: Figura retórica de pensamento que consiste em associar construções semânticas que aparentemente são contraditórias, irreconciliáveis e absurdas, mas que podem iluminar, de modo inédito e surpreendente, o significado do real e da vida. “Muito estranho é ver as pontes / por sob os rios correr / mais ainda ouvir as fontes / sua própria água sorver” (Manuel Alegre).” Ora, fiquei confuso. Pareceu-me que o critério de distinção é obscuro e, nessa medida, concentrei-me nos aspetos formais da distinção, procurando alguma iluminação: o oxímoro referir-se-ia “à oposição de “palavras”, enquanto o paradoxo sinalizaria a oposição entre “construções semânticas”. Isto significaria que em frases como “na sala reinava um silêncio ensurdecedor” estaríamos perante um oximoro, enquanto noutras construções como “na sala os miúdos estavam tão calados que se faziam ouvir de forma ensurdecedora”, já se exprimiria um paradoxo? Estranhei, pois, nesse sentido, podemos definir oxímoro como uma versão condensada do paradoxo e o paradoxo como um desdobramento ou expansão do oxímoro, o que me parece curto para distingui-los como recursos expressivos. Não satisfeito, revisitei algumas publicações do Ciberdúvidas que, na sua maioria, estão de acordo com a minha intuição inicial (oxímoro e paradoxo são termos intercambiáveis no contexto das figuras de estilo). A explicação dominante é que o oxímoro constitui uma espécie de versão estilística ou literária do paradoxo. Assim, por exemplo “andar sem sair do lugar” é um oxímoro ou paradoxo literário, “hipocrisia tão santa” (apesar da condensação) é considerado um paradoxo, sendo que, noutra publicação, oxímoro é considerado apenas um «aproveitamento estilístico de um paradoxo». Continuei a minha busca e consultei quatro gramáticas, tendo notado que uma delas (Cristina Serôdio, Dulce Pereira, Esperança Cardeira e Isabel Falé, Nova Gramática Didática de Português, conforme o dicionário terminológico, Santillana, 2011, p. 300) apenas inclui o oxímoro, considerando-o uma figura retórica que expressa um paradoxo (portanto, não há distinção), sendo que nas outras aparecem como recursos expressivos distintos, essencialmente baseadas na tal distinção palavras/frases, seja oposição lógica entre palavras (“choro e rio”) versus oposição lógica entre construções semânticas (“dói e não se sente”) (M.ª Carmo Azevedo Lopes et al. Da Comunicação à Expressão. Gramática Prática de Português, Raiz Editora, 2022, pp. 424/425 –), ou na oposição lógica entre termos (“um grito de silêncio”) versus oposição lógica entre construções semânticas (“tornar o fogo frio”) (Vasco Moreira e Hilário Pimenta, Gramática de Português, Porto Editora, 2017, pp. 293/294), ou ainda na oposição lógica entre palavras (“disseram o indizível”) versus oposição lógica entre frases (Zacarias Santos Nascimento e Maria do Céu Vieira Lopes, Domínios. Gramática da Língua Portuguesa, Plátano Editora, 2011, pp. 338/339 — note-se que aqui a terminologia usada na distinção concetual é a mesma que a do DT). Concluindo, não descortino nenhuma diferença semântica entre as duas figuras de estilo nem na definição do DT nem nas das diversas gramáticas, mas apenas em algumas uma diferença formal (distinção palavras/frases). O problema é que o dicionário terminológico opera a distinção. Independentemente de considerarmos a fundamentação mais ou menos arrazoada, importaria perceber os motivos que levam o DT a fazê-lo, de modo a compreendermos o critério operativo em exercícios concretos. Agradecendo antecipadamente, gostaria da vossa ajuda para, parafraseando a definição de paradoxo do DT, nos iluminarmos, surpreendentemente ou não, sobre o verdadeiro alcance desta distinção.» iii. Sobre o termo aicmofobia. O artigo, que pode ser lido aqui, responde à seguinte dúvida: «Como pronuncio aicmofobia? Com o ditongo ai, ou com aí, separando as vogais?» No âmbito da intenção de alargamento da ação do Ciberdúvidas nas redes sociais, foi lançado, como os sócios da APP já sabem, O Ciberdúvidas Vai às Escolas. Este novo projeto leva o Ciberdúvidas às escolas onde se ensina a língua portuguesa, em Portugal e no mundo. Aí, de forma presencial ou à distância, um consultor do Ciberdúvidas esclarece, ao vivo e em direto, as dúvidas que os alunos têm relacionadas com questões gramaticais. Estas sessões são gravadas em formato vídeo e serão divulgadas, posteriormente, nas redes sociais do Ciberdúvidas, no formato de vários pequenos vídeos (ou reels), que dão a conhecer o esclarecimento dado a cada uma das dúvidas apresentadas, de modo a que outros alunos e professores possam ter acesso aos conhecimentos envolvidos, para esclarecer dúvidas ou sistematizar conhecimentos. As escolas interessadas em participar neste projeto, recebendo o Ciberdúvidas presencialmente ou à distância, poderão contactar os responsáveis pelo projeto por correio eletrónico: ciberduvidas@iscte-iul.pt Esta semana, destacamos o vídeo n.º 48 com a resposta à dúvida colocada por uma estudante do A. E. Engenheiro Dionísio A. Cunha, de Canas de Senhorim: Qual a diferença entre o modificador do nome e o complemento do nome? A resposta, dada pela consultora Carla Marques, pode ser consultada no vídeo disponível aqui e começa por referir que os nomes que se constroem com complemento podem igualmente construir-se sem complemento. A rubrica Ciberdúvidas Responde, no episódio 73, fala sobre toponímia de origem germânica em Portugal. Assista a este vídeo para saber a resposta, dada pelo consultor Carlos Rocha. Fonte da imagem aqui.