Reflexão sobre as provas de avaliação externa | 2026

O parecer da APP sobre o Exame Final Nacional de Português, código 639, de 2026, reconhece que a prova não é adequada para o nível etário e cognitivo dos alunos por ter uma exigência muito baixa, com um grau de dificuldade apenas mediano, e valorizar em excesso os itens de seleção.
Como se pode ler neste parecer, constatamos as seguintes características no Exame Final Nacional de Português, código 639, de 2026:

i. Baixa complexidade cognitiva e exigência: prova é considerada inadequada para o nível etário e cognitivo do 12.º ano devido à sua excessiva facilidade e simplificação face aos anos anteriores (sobretudo 2024 e 2025). Apenas 2 dos 15 itens apresentam maior complexidade.

ii. Peso excessivo dos itens de seleção: Dos 15 itens, 9 são de escolha múltipla (60% da prova), permitindo acumular até 91 pontos (na classificação final) através de escolhas potencialmente aleatórias.

iii. Problemas nos suportes textuais e contextualização (Grupo I — Parte A): Os excertos de José Saramago são demasiado curtos. A ausência de marcas de continuidade ou de contextualização nos parágrafos limitou a criação de exercícios de interpretação mais sofisticados.

iv. Falta de rigor e ambiguidade nos enunciados ou nos critérios de classificação, como formulações pouco claras na Parte A com o receio de que alunos do 12.º ano confundam «sensações» com «sentimentos».

v. Confusão nos critérios de classificação da Parte B entre recursos expressivos (tropos como metáfora, hipérbole ou comparação) e recursos da Linguística Descritiva (tipos de frase e semântica lexical).

vi. Critérios de classificação do item 7 (Parte C) sobrepostos e confusos, prevendo cenários de resposta demasiado abrangentes para as obras de Saramago.

vii. Retrocesso no formato do item de resposta restrita da Parte C: O item 7 deixou de exigir a leitura comparada entre textos (como em 2024 e 2025), limitando-se a uma exposição de saberes adquiridos previamente, o que o parecer considera menos interessante e contraria o que parecia ser uma tendência importante que se estava a 'impor' nos dois anos anteriores.

viii. Gramática secundarizada (Grupo II): A redução de perguntas diretas de Gramática deixa a avaliação deste domínio dependente do acaso e das opções da escolha múltipla. Detetou-se ainda excesso de citações que dificultaram a leitura (sobretudo na Versão 2).

ix. Polémica e falha de controlo de qualidade na imagem publicada no Grupo III: O item de resposta extensa (apreciação crítica de um cartoon) era análogo a um exercício publicado num livro de apoio aos exames de 2025. A APP classifica a situação como um «erro muito grave» que expõe a falta de controlo de qualidade do instituto EduQA, embora a omissão intencional do título do cartoon no exame tenha salvaguardado a equidade entre os alunos.



Tendo em conta esta análise, o parecer apresenta alguma sugestões e recomendações:

i. Aumento do rigor e da exigência: O Exame Final Nacional deve dar um sinal de maior exigência e densidade nas tarefas pedidas, alinhando-se com os níveis cognitivos elevados necessários para o prosseguimento de estudos no Ensino Superior.

ii. Redefinição das prioridades curriculares, tendo em conta as propostas feitas pela APP para as Aprendizagens Essenciais, em termos de competências complexas de Leitura e de Educação Literária.

iii. Alteração das práticas didáticas: Promover uma alta exposição a atividades práticas de Leitura e de Escrita nas salas de aula, privilegiando as competências mais complexas definidas no Perfil dos Alunos.

iv. Papel do Exame vs. Ensino Superior: Utilizar o exame escrito de Português como um indicador transversal de qualidade e cumprimento do currículo das escolas, devolvendo, contudo, às instituições de Ensino Superior a responsabilidade ética e profissional de selecionar os seus próprios alunos.



Desta análise, resulta a seguinte recomendação final para a avaliação externa das provas de Português, que a direção da APP vai apresentar ao instituto EduQA ainda durante este mês de julho:

i. Deve haver um número menor de itens de seleção, reduzindo para um máximo de 50/200 pontos (atualmente, valem 91 pontos na prova 639 e correspondem a 60% dos 15 itens da prova ou 7/13=53,8% dos itens que contam para a classificação final).

ii. Todos os itens devem ser obrigatórios, deixando de haver itens cujas respostas não contribuem para a classificação final.

iii. Não deve haver uma dupla penalização na pontuação dos itens, atribuindo mais pontos aos que são potencialmente mais complexos ou difíceis.

iv. Os itens de construção devem valer mais do que os de seleção (de modo a evitar uma dupla penalização, podemos prever uma classificação igual por tipo de item).
v. Uma vez que a avaliação externa em formato digital compromete alguns atos cognitivos associados à escrita manual, a plataforma em que se realizam as provas de Português (e das outras disciplinas cuja auditoria é realizada pela APP) deve salvaguardar as ações estratégicas decisivas para um bom desempenho nessas disciplinas, permitindo que os alunos possam sublinhar, fazer esquemas, escrever notas na margem ou, quanto à escrita, nomeadamente nos itens de resposta extensa, planificar previamente os seus textos e permitir ferramentas robustas de edição – ou, em alternativa, permitir que a prova tenha um formato híbrido e que o item de construção de uma resposta extensa possa ser realizado em papel.




Fonte da imagem aqui —  «Coleção de Eletrografia e Copy Art», com curadoria e organização de Bruno Ministro.