Tempo para pensar

Na semana passada, o (in)cumprimento do calendário da classificação das provas de avaliação externa e o recebimento gradual dos itens que os professores iam avaliar levou-nos a fazer uma analogia com o filme La Haine, de Mathieu Kassovitz. Uma semana depois, e quando as pautas ainda não foram afixadas nas escolas, impõe-se uma breve reflexão geral de todo o processo.

Na reflexão anterior, referimos que a situação se tinha degradado consideravelmente, com vários professores de Português a reportar a existência de convocatórias erradas, plataformas inacessíveis, falhas críticas no mecanismo de atribuição e de contagem de respostas para classificação, havendo inclusive respostas já classificadas que eram atribuídas a outros professores, ou respostas já classificadas que desapareciam da plataforma e eram substituídas por novos itens.

Uma semana depois, e quando os alunos ainda aguardam a afixação das pautas e ponderam a possibilidade de pedirem, ou não, uma reapreciação da sua prova, dado o clima de incerteza que marcou a classificação da 1.ª fase das provas finais de ciclo e dos exames finais nacionais, deixamos uma breve reflexão que poderemos continuar na próxima semana, quando pudermos fazer um balanço mais distante dos acontecimentos.

Algumas notas, entretanto:

i. O momento final de classificação das provas coincidiu com uma situação paradoxal: o MECI alegava que tinha falta de professores classificadores, enquanto vários professores, inclusive de Português, manifestaram disponibilidade para classificar mais itens, que até ao fim do dia de ontem não tinham recebido.

ii. O acesso universal dos alunos às provas que realizaram é um bom princípio de equidade e transparência, que fica posto em causa a partir do momento em que esse acesso depende da forma como as diferentes escolas organizam esse acesso.

iii. A digitalização das provas é um bom princípio, que permite, à partida, uma maior fiabilidade na classificação dos itens — e que os professores não tenham levar as provas de avaliação externa para casa, o que constitui uma grande responsabilidade e um grande risco.

iv. No entanto, a digitalização centralizada das provas revelou-se uma operação logística demasiado pesada, demasiado complexa e a exigir uma enorme organização, que não aconteceu.

v. De entre os vários problemas que daí decorreram, talvez seja de destacar sobretudo a gestão do processo das folhas de continuação, o que deu origem a atrasos na classificação de muitas provas e põe em causa a fiabilidade da avaliação externa, sobretudo se não se puder garantir que os professores classificadores avaliam as respostas na íntegra, e não apenas itens incompletos.

vi. O exame de Português do 12.º ano revelou-se particularmente problemático: no caso de uma resposta extensa num item de construção, uma resposta incompleta significa a impossibilidade de aplicar, de forma adequada e rigorosa, critérios que têm a ver com o formato textual, com a progressão da informação de forma coerente, com a eficácia argumentativa, com a apresentação de um texto com partes devidamente proporcionadas, entre outros descritores de desempenho. 
Por outro lado, os critérios de correção linguística pressupõem ainda que os professores classificadores possam sinalizar alguns dos erros encontrados (erros de ortografia, incluindo erros de acentuação, de sintaxe, vocabulário...), não sendo possível aplicar e manter esses sinais numa prova digitalizada — daqui decorre um problema de fiabilidade na classificação dos itens.  Além disso, os alunos, quando tiverem acesso à prova, não podem saber como é que a cotação foi atribuída, ie., como é que a pergunta foi classificada, em termos da correção linguística, por exemplo.
vii. O ensaio-piloto com o exame de Filosofia, em 2024/25, não deu origem à criação de mecanismos que pudessem funcionar como um controlo de qualidade do que correu menos bem — como a gestão das folhas de continuação —, sobretudo numa situação em que se fez, em 2025/26, uma massificação correspondente à digitalização de mais de trezentas mil provas. Todo este processo precisa de ser revisto, em relação à segunda fase dos exames deste ano e em relação à avaliação externa de 2026/27, sobretudo no que diz respeito à gestão das folhas de continuação e à informação que o instituto EduQA deverá dar a todos os professores classificadores, acompanhando adequadamente um trabalho que exige um grande rigor, profissionalismo e tempo.

viii. Na sessão de abertura do XVI ENAPP, em 2025, referíamos que muitas das respostas às questões resilientes e difíceis que tínhamos elencado poderiam ser dadas durante o encontro – recordando, como emblema geral dessa dificuldade, aquele espaço de pensamento e reflexão que há no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, desde 2020: uma intervenção da artista Carolina Almeida, que criou um módulo na sala da exposição permanente intitulado «Tempo para pensar». E com a extenuante sobrecarga de trabalho que os professores têm, ao ponto de não se poderem dedicar às tarefas didáticas e pedagógicas que são o núcleo central do nosso trabalho de resposta às dificuldades dos alunos, nunca como agora precisámos tanto de tempo para pensar, sendo essa a mais robusta das respostas que podemos dar aos problemas do sistema educativo. 

ix. E também tempo para pensar nos problemas graves criados na gestão do processo de digitalização das provas da 1.ª fase. Sendo absolutamente necessário aprendermos com os problemas que houve no ensaio-piloto de Filosofia e, de novo, a uma escala maior, este ano, temos infelizmente muito pouco tempo para pensar em como melhorar tudo o que correu mal e garantir que nenhum aluno fique prejudicado — e que a fiabilidade e a confiança no sistema educativo e na avaliação externa sejam absolutamente robustas.


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