Tempo para pensar, texto de 17 de julho: Na reflexão anterior, referimos que a situação se tinha degradado consideravelmente, com vários professores de Português a reportar a existência de convocatórias erradas, plataformas inacessíveis, falhas críticas no mecanismo de atribuição e de contagem de respostas para classificação, havendo inclusive respostas já classificadas que eram atribuídas a outros professores, ou respostas já classificadas que desapareciam da plataforma e eram substituídas por novos itens. Uma semana depois, e quando os alunos ainda aguardam a afixação das pautas e ponderam a possibilidade de pedirem, ou não, uma reapreciação da sua prova, dado o clima de incerteza que marcou a classificação da 1.ª fase das provas finais de ciclo e dos exames finais nacionais, deixamos uma breve reflexão que poderemos continuar na próxima semana, quando pudermos fazer um balanço mais distante dos acontecimentos. Algumas notas, entretanto: i. O momento final de classificação das provas coincidiu com uma situação paradoxal: o MECI alegava que tinha falta de professores classificadores, enquanto vários professores, inclusive de Português, manifestavam disponibilidade para classificar mais itens, que até ao fim do dia de ontem ainda não tinham recebido. ii. O acesso universal dos alunos às provas que realizaram é um bom princípio de equidade e transparência, que fica posto em causa a partir do momento em que o acesso depende da forma como as diferentes escolas organizam esse processo. iii. A digitalização das provas é um bom princípio, que permite, à partida, uma maior fiabilidade na classificação dos itens — e que os professores não tenham de levar as provas de avaliação externa para casa, o que constitui uma grande responsabilidade e um grande risco. iv. No entanto, a digitalização centralizada das provas revelou-se uma operação logística demasiado pesada, demasiado complexa e a exigir uma enorme organização, que não aconteceu. v. De entre os vários problemas que daí decorreram, talvez seja de destacar sobretudo a gestão do processo das folhas de continuação, o que deu origem a atrasos na classificação de muitas provas e põe em causa a fiabilidade da avaliação externa, sobretudo se não se puder garantir que os professores classificadores avaliem as respostas na íntegra, e não apenas itens incompletos [o que deu origem ao escândalo das classificações suspensas, por faltarem itens nas provas desses alunos]. vi. O exame de Português do 12.º ano revelou-se particularmente problemático: no caso de um item de construção, uma resposta extensa incompleta significa a impossibilidade de aplicar, de forma adequada e rigorosa, critérios que têm a ver com o formato textual, com a progressão da informação de forma coerente, com a eficácia argumentativa, com a apresentação de um texto com partes devidamente proporcionadas, entre outros descritores de desempenho. Por outro lado, os critérios de correção linguística pressupõem ainda que os professores classificadores possam sinalizar alguns dos erros encontrados (erros de ortografia, incluindo erros de acentuação, de sintaxe, vocabulário...), não sendo possível aplicar e manter esses sinais numa prova digitalizada — daqui decorre um problema de fiabilidade na classificação dos itens. Além disso, os alunos, quando tiverem acesso à prova, não podem saber como é que a cotação foi atribuída, i.e., como é que a pergunta foi classificada, em termos da correção linguística, por exemplo. vii. O ensaio-piloto com o exame de Filosofia, em 2024/25, não deu origem à criação de mecanismos que pudessem funcionar como um controlo de qualidade do que correu menos bem — como a gestão das folhas de continuação —, sobretudo na situação em que houve, em 2025/26, uma massificação correspondente à digitalização de mais de trezentas mil provas. Todo este processo precisa de ser revisto, em relação à segunda fase dos exames deste ano e em relação à avaliação externa de 2026/27, sobretudo no que diz respeito à gestão das folhas de continuação e à informação que o instituto EduQA deverá dar a todos os professores classificadores, acompanhando adequadamente um trabalho que exige um grande rigor, profissionalismo e tempo. viii. Na sessão de abertura do XVI ENAPP, em 2025, referíamos que muitas das respostas às questões resilientes e difíceis que tínhamos elencado poderiam ser dadas durante o encontro – recordando, como emblema geral dessa dificuldade, aquele espaço de pensamento e reflexão que há no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, desde 2020: uma intervenção da artista Carolina Almeida, que criou um módulo na sala da exposição permanente intitulado «Tempo para pensar». Com a extenuante sobrecarga de trabalho que os professores têm, ao ponto de não se poderem dedicar às tarefas didáticas e pedagógicas que são o núcleo central do nosso trabalho de resposta às dificuldades dos alunos, nunca como agora precisámos tanto de tempo para pensar, sendo essa a mais robusta das respostas que podemos dar aos problemas do sistema educativo. ix. E também tempo para pensar nos problemas graves criados pela gestão do processo de digitalização das provas da 1.ª fase. Sendo absolutamente necessário aprendermos com os problemas que houve, no ensaio-piloto de Filosofia e este ano, temos infelizmente muito pouco tempo para pensar em como melhorar tudo o que correu mal e garantir que nenhum aluno fique prejudicado — e que a fiabilidade e a confiança no sistema educativo e na avaliação externa sejam absolutamente robustas. Tempo para pensar [cont.], texto de 24 de julho: x. No dia 21 de julho, foram reportados erros na parametrização de itens de seleção na versão 2 de provas de pelo menos duas disciplinas. Soubemos, entretanto, que havia 18.321 provas reclassificadas por erros de parametrização nas provas de Geografia A, Física e Química A, História A e PLNM (497 neste caso). xi. Não conseguimos confirmar situações análogas, no caso do EFN de Português — confirmámos um erro na classificação do item 6 da prova da 1.ª fase, que não parece ter a ver com um erro de parametrização —, mas a APP não ficaria surpreendida se houvesse mais situações, dada a falta de fiabilidade que todo o processo relativo à digitalização das provas tem demonstrado. xii. Os erros de classificação relativos a itens de seleção são graves, porque põem em causa todo o processo de automatização (desses itens) e a principal vantagem que se encontra neste sistema: o aumento de fiabilidade, dado que parte da classificação passa a poder ser feita de forma automática, evitando-se os erros que podem surgir na classificação manual das provas. xiii. No entanto, o que verificamos é que: — Há erros que persistem e põem em causa a fiabilidade na classificação dos itens; — Há um efeito perverso em todo este processo, porque a digitalização e a automatização do processo de classificação acabam por justificar, de forma técnica, mas não pedagógica, a tendência que se verifica de aumento de itens de seleção nas provas do 9.º ano e do 12.º, com prejuízos evidentes no caso da disciplina de Português — cuja avaliação precisa de estar muito mais dependente de itens de construção do que de itens de seleção, e porque a plataforma não é adequada para a avaliação da disciplina, como temos referido nas reflexões que temos feito sobre a avaliação externa (por exemplo, aqui). xiv. O que constatamos, portanto, é que a plataforma e a digitalização das provas correspondem ao pior de dois mundos: a primeira não permite salvaguardar as ações estratégicas decisivas para um bom desempenho na disciplina de Português e a segunda introduz falhas de fiabilidade — e ambas põem em causa a principal justificação técnica para a presença de um excessivo número de itens de seleção. xv. E com todos estes problemas, continuávamos (nessa data) sem conhecer o mais importante: como foram afinal os resultados dos alunos, nas diferentes disciplinas? [Cf. reflexão sobre os resultados dos alunos do 12.º ano na próxima semana]. xvi. Entretanto, tornou-se óbvio um problema de equidade: as provas da segunda fase começaram quando ainda estão a ser classificadas ou reapreciadas as provas da primeira fase, o que levou a um processo de revisão das notas que, por decisão ministerial, permite que os alunos que tenham tido classificações erradas devido a problemas técnicos — por exemplo, erros de parametrização nas matrizes de classificação dos itens de seleção que levaram ao recálculo de mais de 18 mil classificações — nunca terão menos de 9,5 valores, mesmo que a sua nota corrigida ficasse abaixo desse valor. xvii. Esta solução, que permite que um aluno que tenha um desempenho negativo fique com uma nota positiva, devido aos erros durante o processo de classificação dos itens das provas, introduz um óbvio viés e uma distorção na ordenação relativa dos alunos, pondo em causa a equidade na avaliação externa e na candidatura ao ensino superior. xviii. O superior interesse dos alunos fica posto em causa, também, quando os jovens se candidatam e realizam as provas da segunda fase sem conhecerem a nota final da primeira — ou sem saberem as condições de acesso à época especial de setembro, na prática uma terceira fase, o que o MECI só esclareceu depois de a candidatura ter sido realizada —, o que deixa os alunos numa situação grave de ansiedade extrema. A própria justificação ministerial cria um paradoxo, ao procurar garantir que nenhum aluno fique prejudicado, mas sem resolver o problema que referimos anteriormente da falta de equidade deste processo — e tendo em conta que a existência de uma terceira fase, a que alguns alunos podem aceder, é diferente de haver só uma segunda fase, a que todos se podem candidatar, conhecendo antecipadamente as regras do jogo: «As dificuldades técnicas verificadas na classificação eletrónica impediram alguns alunos de conhecer as suas classificações definitivas atempadamente, circunstância que poderá ter condicionado, designadamente, a decisão de inscrição e de realização dos exames na 2.ª fase, bem como a adequada preparação dos alunos. A decisão de criar uma época extraordinária visa assegurar que nenhum aluno é prejudicado por circunstâncias que não lhe são imputáveis.» [sic] xix. Neste momento, continuamos sem saber se vai haver uma auditoria independente a todo o processo de classificação das provas de avaliação externa, se tudo vai correr bem na classificação dos itens da segunda fase, que começou esta semana, não sabemos como vai ser gerido o processo de reapreciação das provas — quando já quase nove mil alunos fizeram esse pedido, mais 43.5% do que no ano passado —, ou se conseguimos que, como dizíamos na semana passada, «a fiabilidade e a confiança no sistema educativo e na avaliação externa sejam absolutamente robustas» para que tudo corra bem, em 2026/27. Neste momento, não sabemos nem temos essa garantia.
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